A cidade de Santos, localizada no litoral de São Paulo, ganha destaque no cenário nacional por dois fatores marcantes revelados pelo Censo do IBGE de 2022. Primeiramente, a cidade ostenta o título de ser a mais feminina do país, com uma impressionante proporção de 54,68% de mulheres em sua população. Além disso, Santos enfrenta um envelhecimento acelerado, com 25,3% de seus habitantes com mais de 60 anos. Esses números refletem um cenário demográfico único e desafios significativos que a cidade está enfrentando.
O Envelhecimento Acelerado da População
O envelhecimento da população é um fenômeno global que afeta muitos países, mas Santos parece estar à frente dessa tendência. Com uma proporção de 25,3% de habitantes com mais de 60 anos, a cidade supera a média nacional. O que explica essa alta concentração de idosos em Santos?
O coordenador da área de projeção de população da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade) de São Paulo, Carlos Eugenio de Carvalho Ferreira, aponta para um fator crucial: a diferença na expectativa de vida entre homens e mulheres. As mulheres tendem a viver mais do que os homens, o que leva a um desequilíbrio demográfico à medida que a população envelhece. Esse desequilíbrio é conhecido como a ‘pirâmide da solidão’.
A ‘Pirâmide da Solidão’ e o Desafio Demográfico
A ‘pirâmide da solidão’ é um fenômeno demográfico onde a proporção de mulheres em idades avançadas supera significativamente a de homens. Isso ocorre porque as mulheres têm uma expectativa de vida mais longa do que os homens, e à medida que envelhecem, essa diferença se torna mais acentuada. Em Santos, essa disparidade é particularmente evidente em faixas etárias avançadas.
Por exemplo, para cada 100 idosas com idade entre 85 e 89 anos em Santos, há aproximadamente 44 idosos na mesma faixa etária. Isso é um reflexo da maior expectativa de vida das mulheres e representa um desafio demográfico para a cidade.
Impactos na Sociedade e nos Serviços Públicos
O envelhecimento acelerado da população tem uma série de impactos na sociedade e nos serviços públicos de Santos. Embora as mulheres sejam maioria na cidade, essa predominância não se reflete na política local. Ao longo de mais de um século, Santos elegeu apenas uma prefeita, Telma de Souza, em 1988. Atualmente, das 19 cadeiras da Câmara de Vereadores, apenas duas são ocupadas por mulheres.
Além disso, a predominância feminina é notável no uso dos serviços públicos. Em 2023, 64,5% das consultas realizadas em policlínicas e ambulatórios de especialidades na cidade foram feitas por mulheres. Essa estatística destaca a necessidade de políticas públicas voltadas para a saúde e o bem-estar das mulheres idosas.
Outro aspecto importante é a participação das mulheres em atividades esportivas oferecidas pela prefeitura. Cerca de 50% dos alunos dessas atividades têm mais de 50 anos, e em média, 60% dos inscritos são do sexo feminino, de acordo com a Secretaria Municipal de Esportes de Santos. Isso demonstra a importância de manter a população idosa ativa e saudável.
O Futuro de Santos
Santos é uma cidade que já experimentou um crescimento significativo no passado, mas os resultados recentes do Censo mostram uma taxa de crescimento menor. Essa tendência é compartilhada com o Estado de São Paulo, que, em termos relativos, também está crescendo menos do que em décadas anteriores.
O desafio para Santos é encontrar maneiras de equilibrar a disparidade de gênero em sua população e promover uma participação mais ativa das mulheres na política local. Além disso, é essencial criar políticas públicas que atendam às necessidades específicas da crescente população idosa da cidade.
Renata Bravo, atual vice-prefeita de Santos e secretária da Mulher, Cidadania e Direitos Humanos, destaca a importância de enfrentar questões como a violência contra as mulheres. A cidade já implementou políticas de combate à violência, incluindo a criação de abrigos sigilosos para mulheres vítimas de violência. Além disso, programas como o curso público de Defesa Pessoal têm atraído centenas de participantes.
O futuro de Santos dependerá da capacidade da cidade de abraçar sua singularidade demográfica e enfrentar os desafios que o envelhecimento da população e a predominância feminina representam. O equilíbrio entre gêneros na política e o desenvolvimento de serviços públicos voltados para as necessidades da população idosa serão fundamentais para garantir um futuro próspero e igualitário para a cidade mais feminina do Brasil.