Com cemitério lotado e gritos por justiça, corpo de pastora Sara Mariano é sepultado

Na tarde de segunda-feira, um congestionamento de veículos na ladeira que conduz ao Cemitério Quinta dos Lázaros, na Baixa de Quintas, antecipava a aglomeração de pessoas reunidas para prestar suas últimas homenagens a Sara de Freitas Souza Mariano, uma cantora e pastora de 35 anos. Tragicamente, ela foi encontrada sem vida e carbonizada na beira da BA 093, próximo a Dias D’Ávila, na Região Metropolitana de Salvador, na sexta-feira anterior.

Em meio a clamores por justiça, preces e aplausos, parentes, amigos e conhecidos acompanharam o cortejo fúnebre que levava o corpo de Sara até o local de seu sepultamento. O velório, que o precedeu, comoveu todos os presentes, que expressaram indignação e pesar pela perda da pastora, exigindo que seu marido e produtor, Ederlan Mariano, condenado pela Polícia Civil por ser o autor intelectual do crime que tirou a vida de sua esposa, seja responsabilizado.

Dolores Correia, que viajou do Maranhão para identificar o corpo de sua filha na manhã desta segunda-feira, recebeu apoio constante de sua família. Ela permaneceu ao lado do caixão até o momento do enterro, reservando suas palavras finais para uma prece direcionada aos céus, antes de se dirigir à multidão que a cercava.

“Sei que apenas o corpo está presente, mas acredito que ela estava [aqui]. Não tenho mais palavras para expressar. Apenas posso dizer que Deus está conosco, nos dando força. Sem Ele, não estaria aqui, meus irmãos. Estou profundamente entristecida”, proferiu.

Desde sua chegada de Fortaleza no domingo (29), Soraia Correia, irmã de Sara, estava tão abalada que chegou a desmaiar no cemitério, conforme relataram amigos. Em entrevista, ela também ecoou os apelos por justiça. “A justiça será feita, e a justiça divina já está em andamento. Vamos assegurar que a memória de minha irmã seja honrada. Agora, meu maior desejo é estar com minha sobrinha ao lado de minha mãe”, afirmou.

A filha de Sara e Ederlan, uma menina de 11 anos, encontra-se sob a guarda dos avós paternos. Segundo Dolores Correia, houve tentativas de contato com eles para negociar a tutela da criança, mas sem sucesso. A família de Sara também buscou a permissão dos avós para que a criança pudesse se despedir da mãe, mas não obteve autorização.

Profundamente entristecida pela situação, Dolores manifestou sua determinação em lutar pela guarda de sua neta e orientá-la no mesmo caminho espiritual que a mãe seguia. “Se eu tiver a minha neta sob os meus cuidados, ela será criada na fé em Jesus Cristo. Ela se tornará uma dedicada missionária do Senhor. Eu esperava que ela estivesse presente nesta despedida, mas a mãe desse criminoso, que é outra criminosa, não permitiu”, enfatizou.

Além dos familiares, amigos e membros de igrejas evangélicas prestaram homenagens a Sara. Luciene Silva, de 56 anos, pastora na mesma igreja que Sara frequentava na Estrada das Barreiras por aproximadamente sete anos, recordou com carinho sua amizade na jornada espiritual.

“Ela lançou o seu CD em nossa igreja. Ela tinha uma paixão pela música, era uma alma alegre, sempre disposta a interagir com todos, irradiando felicidade. Seu amor pela filha era inabalável. Ela era profundamente amada. A notícia de sua partida me deixou extremamente triste; ainda estou processando tudo”, compartilhou.

Mulheres de diferentes igrejas evangélicas aproveitaram a ocasião para erguer cartazes pedindo o fim da violência doméstica contra as mulheres e destacando a importância de abordar esse tema nas congregações. “A tragédia aconteceu em outubro, o mês dedicado à conscientização sobre o cuidado das mulheres. Isso não é uma coincidência; é um chamado para que essa questão seja discutida nas igrejas. Sara recebeu apoio de muitas pessoas para sair desse relacionamento, mas acreditava na mudança do marido. Ela orou, mas o monstro que existia nele prevaleceu. Como mulheres, não podemos tolerar isso”, protestou uma membra da igreja frequentada por Sara, que preferiu não se identificar.



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