A manhã desta segunda-feira (11) começou com um daqueles anúncios que pegam todo mundo de surpresa. No Bom Dia Brasil, logo depois dos jornais locais e antes do Encontro com Patrícia Poeta, a jornalista Ana Paula Araújo interrompeu o clima ainda sonolento de quem está tomando café pra dar uma notícia que caiu como uma pedra no lago: “Morreu hoje, na Colômbia, o senador e pré-candidato à presidência Miguel Uribe, que foi baleado em junho” — disse ela, com aquele tom sério que dispensa qualquer outro comentário.
Na sequência, ela chamou o analista Ariel Palácios pra explicar melhor o caso. E aí o clima, que já era tenso, ficou ainda mais carregado.
Miguel Uribe, 39 anos, não resistiu aos ferimentos semanas depois de ter sido atingido por disparos durante um comício em Bogotá, lá em julho. A cena, que rodou em vídeos pela internet e redes sociais, gerou choque não só na Colômbia, mas também em outros países da América Latina. O Centro Democrático, partido pelo qual Uribe concorria à presidência, soltou uma nota emocionada, lamentando a perda e pedindo “justiça rápida e exemplar”.
Pra quem acompanha a política colombiana, o nome Uribe não era estranho. Ele carregava um peso histórico: era neto do ex-presidente Julio Turbay (que governou entre 1978 e 1982) e filho da jornalista Diana Turbay, que, infelizmente, foi sequestrada e morta por um grupo ligado ao narcotraficante Pablo Escobar, no início dos anos 90. Miguel tinha só cinco anos quando a mãe perdeu a vida — uma tragédia que o marcou profundamente. Essa história, inclusive, foi relembrada no livro Notícia de um Sequestro, do Nobel Gabriel García Márquez, que voltou a circular bastante nas livrarias depois de ganhar adaptação em série de TV.
Uribe, ao contrário de muitos que herdaram sobrenomes famosos e seguiram pela vida sem sobressaltos, construiu um currículo robusto. Formou-se em Direito pela Universidad de los Andes, em Bogotá, fez mestrado em Políticas Públicas na mesma instituição e ainda foi buscar uma pós-graduação em Administração Pública em Harvard, nos Estados Unidos. Ou seja, não era só o peso do nome — havia muito estudo e uma trajetória acadêmica sólida.

A entrada dele na política aconteceu em 2012, quando foi eleito o vereador mais jovem de Bogotá, aos 26 anos, pelo Partido Liberal. A carreira decolou rápido: em 2016, assumiu a Secretaria de Governo da capital colombiana, durante a gestão de Enrique Peñalosa. Ganhou visibilidade com propostas voltadas para segurança pública e mobilidade urbana, assuntos que, até hoje, rendem debates acalorados nas redes sociais e nas ruas.
Desde então, Uribe construiu uma base política considerável. Falava bem, tinha boa presença em entrevistas e não fugia de pautas polêmicas — um perfil que, para alguns, era visto como “sangue novo” necessário na política, mas que, para outros, soava como um político tradicional embalado numa roupagem moderna.
O atentado que tirou sua vida levantou, mais uma vez, a discussão sobre segurança de figuras públicas na Colômbia, um país que, apesar de avanços nos últimos anos, ainda convive com altos índices de violência política. Não é à toa que nas redes sociais colombianas, nesta manhã, hashtags como #JusticiaParaUribe e #ColombiaEnLuto figuravam entre os assuntos mais comentados.
Enquanto isso, no Brasil, a notícia também repercutiu, principalmente entre jornalistas e analistas de política internacional. Afinal, a Colômbia é um dos principais parceiros do Brasil na região, e instabilidade política por lá pode ter reflexos diretos aqui.
No fim das contas, a morte de Miguel Uribe não é só mais uma tragédia pessoal. É também um lembrete duro de que, em alguns lugares, entrar na política ainda pode ser uma sentença de risco — e que, mesmo em 2025, a democracia na América Latina continua caminhando sobre terreno instável.