Padre que detonou Preta Gil recebe dura punição

O clima ficou tenso em Areial, pequena cidade da Paraíba, depois que o padre Danilo César de Sousa Bezerra recebeu uma notificação extrajudicial. O motivo? Comentários considerados ofensivos contra a cantora Preta Gil, feitos durante uma homilia. O caso ganhou repercussão e foi divulgado nesta quinta-feira (14), mexendo não só com a comunidade local, mas também com o debate nacional sobre respeito religioso.

A denúncia partiu de ninguém menos que Gilberto Gil e Flora Gil — pai e madrasta da cantora — que afirmam que o sacerdote cometeu um ato de intolerância religiosa. Segundo eles, as palavras usadas na pregação não foram apenas infelizes, mas desrespeitosas com as religiões de matriz africana. A família exige uma retratação pública e também medidas disciplinares por parte da Igreja. A informação chegou ao público por meio do portal Hugo Gloss, que repercutiu a notificação.

No documento encaminhado ao padre, os familiares relatam que ele teria usado a expressão “forças ocultas” para se referir aos orixás, além de desejar que “o diabo levasse” os praticantes dessas religiões. Não parou por aí: na mesma ocasião, ele teria ironizado a fé de Preta Gil e de seu pai, questionando a ausência de intervenção espiritual em um momento de fragilidade da cantora.

A notificação descreve que, ao fazer essa associação, o padre vinculou a espiritualidade da artista e de sua família ao sofrimento, adotando, segundo os denunciantes, um tom debochado e uma postura incompatível com o papel de líder religioso. É como se, no meio de um sermão, a mensagem de acolhimento fosse substituída por um ataque direto — algo que, no contexto atual de luta por respeito e diversidade, chama ainda mais atenção.

Outro ponto mencionado no documento é que a homilia foi transmitida no YouTube, ampliando o alcance das declarações. E, passadas mais de duas semanas desde o episódio, a família afirma não ter recebido qualquer pedido de desculpas ou nota pública de retratação. O texto da notificação chega a dizer que “a omissão de Vossa Excelência Reverendíssima e de Vossa Reverência contribui para perpetuar o estado de desrespeito à família, à memória da Sra. Preta Gil e às religiões de matrizes africanas”.

Esse tipo de caso não é exatamente raro nos últimos tempos. Basta lembrar dos debates que explodiram nas redes sociais quando, recentemente, uma influenciadora famosa criticou publicamente um ritual indígena, gerando uma onda de respostas e pedidos de mais empatia. Vivemos uma época em que qualquer fala — especialmente de figuras públicas e líderes — ganha dimensão maior por conta da internet. E, quando o tema envolve religião, a sensibilidade precisa ser redobrada.

No Brasil, a liberdade religiosa é protegida por lei, mas isso não impede que episódios como esse aconteçam, mostrando que o preconceito contra religiões afro-brasileiras ainda persiste. Para muitos, a fala do padre não é apenas uma opinião pessoal, mas um discurso que reforça estigmas e alimenta intolerância.

Enquanto isso, na cidade de Areial, o assunto divide opiniões. Há fiéis que defendem o sacerdote, alegando que ele estava apenas pregando de acordo com sua fé. Já outros entendem que, independentemente da crença, o respeito ao próximo deve estar acima de qualquer interpretação religiosa. Nos comentários das redes, esse embate aparece com força, como um reflexo da polarização que o país vive.

Agora, o próximo passo está nas mãos da Igreja e do próprio padre. Uma retratação pública pode amenizar a situação, mas o episódio já deixa lições importantes sobre o impacto das palavras — principalmente quando ditas em espaços de autoridade. Como se diz no ditado popular, “o que é falado não volta atrás”, e, no mundo digital, a repercussão pode atravessar fronteiras em segundos.

Em tempos em que o diálogo inter-religioso é tão defendido por líderes espirituais e movimentos sociais, casos como esse reforçam a necessidade de repensar discursos e atitudes. No fim das contas, mais do que um embate entre figuras conhecidas, a história revela um desafio que ainda temos como sociedade: aprender a conviver com as diferenças sem transformar o púlpito ou a tela do celular em palco para o preconceito.



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