Pouco antes de ser assassinada em Cascadura, Zona Norte do Rio de Janeiro, a catarinense Eweline Passos Rodrigues, mais conhecida no mundo do crime como “Diaba Loira”, apareceu em um vídeo nas redes sociais soltando farpas contra dois nomes de peso: o rapper Oruam e o traficante Doca, apontado como um dos chefes do Comando Vermelho (CV). O registro, publicado no TikTok, acabou virando quase que uma espécie de “aviso” ou até desafio, feito cerca de três semanas antes de sua execução.
No vídeo, Eweline, que tinha apenas 28 anos, acusa os dois de estarem tentando comprar um integrante do Terceiro Comando Puro (TCP) — facção para a qual ela havia migrado recentemente, depois de romper com o CV. De forma debochada, soltou a frase que acabou repercutindo: “vocês já tão tentando comprar até o governo”. A fala, além de provocar, deixava claro que ela não tinha medo de se expor publicamente.
O recado a Oruam
Com mais de 92 mil seguidores em suas redes, a “Diaba Loira” não perdia a oportunidade de usar sua visibilidade para reforçar a lealdade ao TCP. No mesmo vídeo, direcionou uma fala direta a Oruam, filho de Marcinho VP, um dos chefes mais conhecidos do Comando Vermelho. Em tom meio irônico, meio provocativo, afirmou que ele precisava “se ligar”, já que suas tentativas de cooptação estariam ultrapassando os limites.
“Não vai arrumar nadinha. Mas pô, pra quem tenta comprar até o governo, né? É f***. Qual é, Oruam? Já tá ficando chato. Querendo comprar o cara? Segura aí, parceiro”, disparou a traficante, demonstrando claramente que sua ruptura com o CV era definitiva.
A virada de vida
A história de Eweline, no entanto, não começou dentro do tráfico. Antes de ganhar apelido e tatuagem de facção, ela levava uma vida aparentemente comum em Tubarão, no sul de Santa Catarina. Trabalhou como alfaiate, tentou a sorte revendendo cosméticos e chegou até a vender trufas pelas ruas. Quem convivia com ela dificilmente poderia imaginar que acabaria entrando de cabeça no crime organizado.
Segundo relatos da Polícia Civil catarinense, o ponto de virada teria acontecido em 2022, quando Eweline foi vítima de uma tentativa de feminicídio. O episódio traumático, segundo investigadores, teria sido o gatilho para sua aproximação com pessoas ligadas ao tráfico. Pouco tempo depois, seu nome já circulava entre figuras de facções, até que a aliança com o TCP foi firmada.
Aliança marcada na pele
Sempre muito ativa nas redes, “Diaba Loira” também fazia questão de ostentar sua lealdade em símbolos e gestos. Uma das marcas que mais chamavam atenção era a tatuagem nas costas: uma mulher empunhando um fuzil, exibindo o número três com a mão — referência direta ao Terceiro Comando Puro. Além disso, costumava postar frases e vídeos exaltando a chamada “Tropa do Coelhão”, grupo diretamente associado ao TCP.
Esse tipo de exposição, que para alguns poderia ser apenas bravata, mostrava na prática como Eweline fazia questão de se posicionar. Num cenário em que o Comando Vermelho e o Terceiro Comando disputam espaço a cada esquina do Rio, se declarar de um lado significava automaticamente atrair a ira do outro.
O desfecho anunciado
A execução, que aconteceu menos de um mês após o vídeo polêmico, reforçou aquilo que moradores das comunidades do Rio já sabem bem: ninguém afronta chefes de facção em rede social sem pagar um preço. A morte de Eweline não foi surpresa para quem acompanha de perto a guerra entre CV e TCP, mas acabou chamando atenção justamente pela ousadia dela em se expor.
No fundo, o caso da “Diaba Loira” é também um retrato do quanto as redes sociais se transformaram em palco até para disputas do crime. Lives, vídeos, recados cifrados… hoje tudo isso circula livremente em plataformas como TikTok e Instagram, ao alcance de qualquer adolescente curioso.
Enquanto isso, a vida real segue sendo bem mais dura que qualquer curtida ou comentário. Eweline, que já foi costureira e vendedora de trufas em Santa Catarina, terminou encontrada morta no Rio, envolvida numa guerra que parece longe de acabar.