A atriz Marieta Severo voltou aos holofotes, mas dessa vez não foi por conta de uma novela ou peça teatral. Ela gravou um vídeo onde expressa sua profunda indignação contra a ação considerada truculenta da Guarda Civil Metropolitana de São Paulo (GCM) contra artistas do Teatro de Contêiner Mungunzá, espaço cultural que há anos resiste no centro da capital paulista. O relato, cheio de emoção, foi publicado nesta quinta-feira (21) por sua filha, a também atriz Silvia Buarque, nas redes sociais, e logo se espalhou entre colegas e admiradores.
No vídeo, Marieta não escondeu a dor ao afirmar que as cenas lhe trouxeram memórias amargas dos tempos da ditadura militar. “Nós vivemos uma democracia plena, precisamos dela, gostamos dela, queremos viver nela, e esse tipo de cena não compactua, não pode acontecer na liberdade que precisamos, principalmente nas nossas artes, na nossa cultura”, declarou a atriz, que também é dona do Teatro Poeira, no Rio de Janeiro, ao lado de Andréa Beltrão.
A fala de Marieta ecoa ainda mais forte porque ela não fala de ouvir dizer. Nos anos de 1968, ainda muito jovem, ela estava no elenco do polêmico musical “Roda Viva”, dirigido por José Celso Martinez Corrêa (1937-2023), peça baseada em texto de Chico Buarque. Durante as apresentações em São Paulo, o grupo foi violentamente atacado pelo famigerado Comando de Caça aos Comunistas (CCC). Naquele episódio, atrizes como Marília Pêra (1943-2015) e Zezé Motta foram agredidas, episódio que ficou marcado na memória cultural do Brasil.
Com a experiência de quem viveu na pele a censura e a violência, Marieta frisou no vídeo que a arte é um espaço vital de reflexão e liberdade. “É com profunda indignação e tristeza que eu falo agora pra vocês de uma cena lamentável, horrível, que vi ontem e que, infelizmente, me remeteu aos piores tempos de uma ditadura que vivi, onde os teatros eram invadidos, onde os atores eram ameaçados, e é um tipo de cena que nunca imaginei que pudesse voltar”, desabafou.
Esse episódio se soma à tensão política em São Paulo. O Ministério Público estadual já cobrou explicações do prefeito Ricardo Nunes (MDB) sobre quem autorizou a ação da última terça-feira (19). Na ocasião, guardas civis usaram gás de pimenta e chegaram a agredir artistas durante a retirada de equipamentos guardados em um anexo do teatro. A operação, feita sem mandado judicial, gerou acusações de abuso de poder e até de improbidade administrativa, resultando na abertura de um inquérito civil.
A repercussão foi imediata. Silvia Buarque, ao divulgar o vídeo, ressaltou: “Minha mãe tem propriedade para falar sobre violência contra as artes. Eu e ela disputamos sobre quem odeia mais gravar vídeos. Dessa vez, ela ganhou porque sua dor é nítida aqui. Mas essa história me doeu também.” Outras atrizes se manifestaram. Renata Sorrah escreveu: “Tempos tristes. Marieta falou por todos nós.” Já Malu Galli chamou a colega de “farol”, enquanto Cissa Guimarães reforçou: “Salve Marieta! Salve a democracia!”.
O caso ganhou corpo não apenas nas redes, mas também nas ruas. Desde o ocorrido, artistas, estudantes de teatro e moradores do centro têm se reunido em frente ao espaço como forma de resistência. Em assembleia, decidiram manter uma vigília permanente, com aulas públicas, apresentações e rodas de conversa. A ideia é transformar o momento de violência em um gesto coletivo de criação. Na noite de quinta-feira (21), o Teatro de Contêiner recebeu o show gratuito do projeto Negras Melodias, que além de espetáculo, foi também ato político contra o despejo.
O episódio lembra que, em pleno 2025, ainda discutimos os limites da democracia e da liberdade artística no Brasil. O gesto de Marieta não é apenas pessoal: é simbólico de uma geração que lutou contra o silenciamento e que vê, com certa angústia, sinais de repetição de erros que já custaram caro ao país.