O cenário político dos Estados Unidos, que já anda bem turbulento, ganhou mais um capítulo polêmico nesta semana. O presidente Donald Trump decidiu cancelar a proteção do Serviço Secreto para a ex-vice-presidente Kamala Harris. Essa medida chama atenção porque Harris ainda tinha direito ao amparo legal, estendido por Joe Biden antes de deixar a Casa Branca. Agora, com um simples memorando assinado na quinta-feira, 28 de agosto, esse benefício foi encerrado.
Pelo que manda a lei, ex-vice-presidentes recebem seis meses de segurança após saírem do cargo. No caso de Harris, esse prazo se encerrou em julho. Biden, porém, havia assinado uma extensão discreta, prolongando a proteção por mais um ano. Nada disso adiantou: Trump derrubou a ordem, instruindo o Serviço Secreto a encerrar imediatamente qualquer procedimento que fosse além do obrigatório por lei.
O anúncio chega justamente no momento em que Harris se prepara para rodar o país divulgando seu novo livro, 107 Days (“107 Dias”). A obra é uma espécie de memória sobre sua tentativa — frustrada — de chegar à presidência em 2024. O timing, convenhamos, não poderia ser mais simbólico.
“Nada de alarmante”, dizem os oficiais
Uma carta oficial, datada de 28 de agosto, mostra claramente a ordem para cortar a segurança da ex-vice. Segundo fontes ligadas à Casa Branca, não haveria nenhum risco grave que justificasse a prorrogação da proteção. A avaliação de ameaças, feita recentemente, não encontrou nada alarmante.
Vale lembrar que desde 2008 existe uma lei que autoriza o Serviço Secreto a proteger ex-vices, seus cônjuges e filhos menores de 16 anos. Mas essa proteção, via de regra, é limitada ao período inicial pós-mandato.
O marido de Harris, Doug Emhoff, por exemplo, já havia perdido os agentes no começo de julho. Agora chegou a vez dela: sem escolta, sem monitoramento de inteligência preventiva e sem vigilância extra em sua residência em Los Angeles. Quem entende do assunto garante que, se fosse pagar por conta própria, a conta chegaria fácil na casa dos milhões por ano.
Repercussão imediata
A reação política não demorou. O governador da Califórnia, Gavin Newsom, e a prefeita de Los Angeles, Karen Bass, criticaram duramente a decisão. Bass chegou a dizer à CNN que se trata de mais um ato de vingança por parte de Trump, inserido em uma lista de revogações e retaliações contra desafetos. Ela garantiu ainda que cuidará pessoalmente para que Harris se mantenha segura na cidade.
De fato, Trump já tem um histórico recente de cortar proteções. Desde janeiro, quando reassumiu a Casa Branca, o republicano revogou a segurança de nomes como Hunter e Ashley Biden, filhos do ex-presidente, além de Anthony Fauci, que comandava o Instituto Nacional de Alergia. Até aliados de peso de seu antigo governo perderam o benefício: o ex-secretário de Estado Mike Pompeo e John Bolton, que mais tarde virou crítico ferrenho.
Kamala Harris não passou ilesa durante seu tempo como vice. Pelo contrário: foi alvo de diversas ameaças. Ex-agentes do Serviço Secreto destacam que, pelo fato de ser mulher e negra, os riscos foram ainda mais acentuados. Em agosto de 2024, um homem da Virgínia foi preso acusado de planejar ataques contra ela e também contra Barack Obama.
Outro episódio curioso ocorreu em 2021, quando uma mulher da Flórida admitiu ter enviado vídeos ameaçadores a Harris, dizendo que um ataque poderia acontecer em até 50 dias. Ela acabou sendo condenada.
O detalhe é que, ironicamente, o próprio Trump enfrentou recentemente duas tentativas de assassinato durante sua campanha de retorno à presidência. Nesses casos, o Serviço Secreto foi determinante para evitar tragédias. Daí surge uma contradição: o mesmo órgão que salvou sua vida, hoje é usado como peça em disputas políticas.
No fim das contas, a medida reforça ainda mais o clima de tensão em Washington. Uns veem a decisão como simples aplicação da lei. Outros, como mais um gesto de revanchismo típico de Trump. Seja qual for a versão, uma coisa é certa: a segurança de Kamala Harris, a primeira mulher e negra a ocupar a vice-presidência dos EUA, volta a ser uma incógnita.