Nos últimos dias, Brasília voltou a respirar aquele ar de tensão misturado com curiosidade. Nesta segunda-feira (1º/9), a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) fez uma visita de quase duas horas ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que cumpre prisão domiciliar em sua residência no Distrito Federal. A ex-ministra, conhecida pelo jeito firme, mas também por um lado bastante religioso, saiu de lá afirmando que encontrou Bolsonaro “sereno”.
A declaração foi curta e direta, como é de costume dela quando não quer se alongar demais no assunto. Damares não entrou em muitos detalhes sobre o que conversaram, limitando-se a dizer que houve um tempo de oração e que os dois aproveitaram para trocar algumas palavras mais pessoais. Segundo a própria senadora, o encontro também foi motivado por uma preocupação do ex-presidente com o estado de saúde dela, já que recentemente Damares revelou estar em tratamento contra um câncer.
O encontro, que durou cerca de duas horas, foi acompanhado por uma movimentação discreta, mas atenta, da segurança e da Polícia Penal do Distrito Federal. Existe uma ordem expressa do ministro do STF, Alexandre de Moraes, para que todos os veículos que entram ou saem da casa de Bolsonaro passem por revista. No entanto, o carro da senadora não chegou a ser vistoriado. Isso porque o motorista deixou Damares bem em frente à porta da residência, sem acessar a garagem, e foi esperar em outra rua do condomínio. Ou seja, tecnicamente não houve descumprimento da determinação judicial.
Outro detalhe que chamou atenção: no momento da saída, foi o próprio Bolsonaro quem acompanhou Damares até o portão, em um gesto calculado para mostrar que retornou imediatamente ao interior da casa, respeitando as restrições impostas pela Justiça. Esse cuidado com a imagem, diga-se de passagem, tem sido uma constante nos últimos meses, já que qualquer passo em falso pode render novo desgaste político ou até problemas judiciais.
Apesar do clima de seriedade, a visita não foi só conversa de bastidores. De acordo com relatos, houve espaço para piadas, histórias descontraídas e, claro, oração — marca registrada tanto de Damares quanto do casal Bolsonaro. Michelle, ex-primeira-dama, esteve presente o tempo todo, acompanhando a amiga e reforçando a ideia de união familiar nesse momento delicado. Em meio às orações, rolou até bolo servido pelos anfitriões, o que deu um ar mais caseiro à situação.
Damares, mesmo autorizada a permanecer até as 18h, preferiu encerrar a visita antes. Segundo ela, havia compromissos já marcados que não podiam ser adiados. A decisão acabou reforçando a narrativa de que a visita teve um caráter mais simbólico do que político.
O encontro, porém, não deixa de levantar especulações nos bastidores de Brasília. Afinal, o cenário político anda agitado com os julgamentos recentes do STF e a possibilidade de novas investigações que podem respingar em figuras próximas ao ex-presidente. A presença de Damares, que hoje é senadora e ainda mantém forte ligação com a base conservadora, pode ser lida também como um gesto de apoio num momento em que Bolsonaro tenta manter moral elevada entre aliados.
Outro ponto é a própria condição de saúde de Damares, que tem gerado comentários e solidariedade até mesmo de adversários políticos. O fato de Bolsonaro ter se mostrado preocupado com isso também humaniza a relação entre eles, afastando um pouco aquela imagem de encontros frios, meramente estratégicos.
Em resumo, a visita misturou fé, amizade, política e até um pedaço de bolo. Pequenos gestos que, numa Brasília tão polarizada, acabam ganhando interpretações diversas. Para uns, foi apenas uma visita pessoal. Para outros, uma jogada de bastidores para reforçar alianças. Seja como for, o encontro mostra que, mesmo em prisão domiciliar, Bolsonaro continua sendo figura central no tabuleiro político brasileiro, cercado de aliados, críticas e, claro, orações.