Com apenas 16 anos, Mariana Eustáquio vive uma situação que parece saída de um enredo de filme pesado, mas infelizmente é vida real. A adolescente tem as contas bancárias bloqueadas, o passaporte retido, o celular apreendido e carrega uma ameaça constante sobre os ombros: se ousar aparecer nas redes sociais, sua mãe pode acabar presa. Essa ameaça não foi apenas verbal — aconteceu na última visita da Polícia Federal à casa dela. Na ocasião, Mariana sofreu uma revista pessoal e se assustou quando uma policial a tocou de forma invasiva, chegando a se cortar num porta-retrato durante a confusão.
E aí vem a pergunta que não quer calar: o que uma garota de 16 anos fez para merecer tudo isso? Seria envolvimento com facção criminosa? Nada disso. Ela não é do PCC, nem do Comando Vermelho. Também não vive de criar conteúdo impróprio na internet. O “crime” dela, entre aspas, é simplesmente ser filha do jornalista Oswaldo Eustáquio.
Oswaldo é investigado desde 2020 no polêmico Inquérito dos Atos Antidemocráticos. Em junho daquele ano, por ordem do ministro Alexandre de Moraes, a PF prendeu o comunicador. A acusação se apoiava em frases como: “Você é a favor de intervenção militar? Não, sou a favor da intervenção do povo”. Para os investigadores, esse discurso seria uma forma disfarçada de defender ruptura institucional. Mas aí fica a dúvida: dizer que confia no povo é crime? Se for, nunca vamos saber oficialmente, porque apesar de ter sido preso várias vezes, Oswaldo nunca foi indiciado nem denunciado formalmente. Resumindo: não sabe nem de que exatamente é acusado e, portanto, nunca teve direito de se defender.
A história ganha ainda mais capítulos quando, em dezembro de 2022, poucos dias depois de anunciar que levaria uma denúncia contra Moraes para a Corte Interamericana de Direitos Humanos, o jornalista recebeu uma nova ordem de prisão. Os detalhes? Segredo de justiça, como quase tudo que envolve decisões do “Xandão”, apelido popular de Moraes.
Meses depois, a PF tentou capturar Oswaldo no Paraguai. Só que o governo paraguaio informou que ele vivia lá como exilado político, o que impedia sua prisão. A partir daí, a pressão estatal parece ter se voltado contra Mariana, sua filha adolescente.
Esse roteiro já é conhecido: bloqueio de contas bancárias, corte de redes sociais, sufocamento financeiro. Muitos investigados nesse inquérito só conseguem sobreviver graças a vaquinhas online, ajuda de amigos ou familiares. Mariana entrou nessa mesma espiral.
Independente de concordar ou não com o pai dela, o fato é que não existe lei que proíba uma jovem de pedir ajuda pela internet. Ela chegou a postar vídeos onde dizia algo simples, direto, quase desesperado:
“Eu não tenho nada a ver com isso. É um pedido de socorro pra eu poder ter uma vida normal. Eu e meus irmãos não poderemos ir à escola e vamos ter que doar nossos cachorrinhos se esse apelo não for atendido. Ajudem com esse novo Pix”.
A cena é pesada, quase insuportável de assistir. A gente vê diariamente políticos acusados de corrupção milionária andando soltos, sorrindo em eventos e até sendo reeleitos. Enquanto isso, uma adolescente pede ajuda para não perder os cães de estimação porque o Estado resolveu puni-la pelo que o pai representa.
Num Brasil onde o STF se tornou um dos principais protagonistas da política, casos como o de Mariana levantam debates intensos. Se de um lado há quem veja rigor necessário contra supostas ameaças à democracia, de outro cresce o sentimento de que algumas medidas beiram a perseguição pessoal, atingindo inocentes.
E assim, Mariana, uma garota que deveria estar preocupada com vestibular, TikTok e música nova da Anitta, vive no meio de uma novela judiciária que parece não ter fim. O drama dela revela uma pergunta incômoda: até onde pode ir o poder de um ministro?