Ator Guilherme Reis falece aos 70 anos em Brasília

Na manhã desta quarta-feira, 24 de setembro, Brasília acordou com a triste notícia da morte do ator e diretor Guilherme Reis, que tinha completado 70 anos recentemente. Ele estava internado já fazia alguns dias, lutando contra complicações de saúde, mas infelizmente não resistiu. O velório está marcado para esta quinta-feira, 25, na Sala Martins Pena, no Teatro Nacional, e acontece das 12h30 até às 15h, horário em que amigos, familiares e colegas poderão se despedir.

Reis deixa a esposa, a atriz Carmem Moretzsohn, parceira de vida e de profissão, com quem assinou vários projetos de teatro. Além dela, ficam os dois filhos, Marina e Gabriel, e a netinha Zilah, que ele costumava mencionar com orgulho em entrevistas recentes.

Guilherme nasceu em Goiânia, no ano de 1954, mas foi em Brasília, para onde se mudou ainda criança, que descobriu o caminho das artes. A estreia dele aconteceu cedo, aos 18 anos, quando pisou nos palcos em peças como O Noviço e Os Saltimbancos. O gosto pela cena teatral só cresceu: vieram outros trabalhos marcantes como Pequenos Burgueses e Um Grito no Ar.

Na direção, também mostrou ousadia. Montou espetáculos que ficaram na memória de quem acompanhava teatro nos anos 80 e 90: A Revolução dos Bichos (1980), Chapeuzinho Amarelo (1981) e Reta do Fim do Fim, que lhe rendeu em 1997 o Prêmio Villanueva de Melhor Espetáculo Estrangeiro em Cuba – feito que colocou Brasília no radar cultural internacional, numa época em que a cidade ainda buscava se afirmar artisticamente.

Ao longo da carreira, Guilherme trabalhou com mestres da cena brasileira, como Hugo Rodas, Antônio Abujamra e Zeno Wilde. Não era alguém que se acomodava: entre 2005 e 2008, organizou uma trilogia inspirada em dramaturgos argentinos. Já em 2016, um de seus últimos projetos foi o musical infantil Dentro da Caixinha, lembrando que ele nunca perdeu o interesse em dialogar com diferentes públicos.

No cinema, também deixou marcas. Participou de filmes como O Sonho Não Acabou (1982), de Sérgio Rezende, e O Tronco (1999). E, como se não bastasse, fundou em 1995 o Cena Contemporânea, festival que se tornou referência no calendário cultural do Brasil. Até hoje o evento é lembrado por trazer companhias nacionais e estrangeiras para Brasília, oxigenando a produção local.

Pouca gente se lembra, mas entre 2015 e 2018 Guilherme Reis foi secretário de Cultura do Distrito Federal, durante o governo de Rodrigo Rollemberg. Na gestão, ele esteve à frente da criação da Lei Orgânica da Cultura, que estruturou o Sistema de Arte e Cultura do DF. Também coordenou reformas importantes, como a do Espaço Cultural Renato Russo e do Centro de Dança de Brasília, locais que seguem ativos e pulsantes até hoje.

Em nota de despedida, a organização do Cena Contemporânea escreveu: “Um homem de teatro que abriu caminhos enquanto Brasília ainda se descobria como potência criativa. Usou foice e machado para abrir as trilhas que fortaleceram nosso cenário artístico.”

Tributo e despedida

As homenagens se multiplicaram nas redes sociais. O ex-governador Rollemberg escreveu: “Nosso Guilla era uma das pessoas mais queridas que já conheci. Um amigo, uma energia contagiante, um artista brilhante, um secretário que me enche de orgulho.”

O atual secretário de Cultura, Claudio Abrantes, também destacou o legado: “Guilherme não apenas idealizou a Lei Orgânica da Cultura, como também transformou espaços icônicos de Brasília. Recentemente, tive a honra de entregar a ele a Medalha do Mérito Cultural Seu Teodoro.”

A morte de Guilherme ocorre em um momento em que o Brasil debate o futuro da cultura pós-pandemia, com cortes de verbas e resistência de artistas diante de tantas dificuldades. Sua trajetória serve como lembrete de que o teatro, o cinema e a arte em geral precisam sempre de vozes que abram caminhos, mesmo em tempos duros.

Ele se despede deixando um legado que vai muito além dos palcos e das telas. Brasília, que hoje chora sua partida, também celebra a história de um homem que acreditou no poder da cultura como ferramenta de transformação social.



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