Na noite da última terça-feira, 23 de setembro, um grave acidente aéreo deixou o Brasil e também o mundo da arquitetura e do cinema de luto. Um avião de pequeno porte caiu na região da Fazenda Barra Mansa, perto de Aquidauana, no Mato Grosso do Sul. Infelizmente, as quatro pessoas que estavam a bordo não resistiram, e a aeronave explodiu logo após a queda, dificultando qualquer chance de resgate.
As vítimas já foram identificadas, e entre elas estão nomes de destaque internacional. O piloto e dono do avião era Marcelo Pereira de Barros. Também estavam no voo o arquiteto chinês Kongjian Yu, considerado um dos maiores paisagistas do planeta, o cineasta brasileiro Luiz Fernando Ferraz e o documentarista Rubens Crispim Jr.
A notícia rapidamente repercutiu nas redes sociais, e não apenas pela tragédia em si, mas pelo peso das trajetórias dessas pessoas. Kongjian Yu, por exemplo, não era um arquiteto qualquer. Conhecido mundialmente pelo conceito de “cidades-esponja”, ele defendia soluções urbanas baseadas na natureza para lidar com enchentes e crises hídricas. Num momento em que tantas cidades brasileiras enfrentam alagamentos frequentes — basta lembrar do caos em Porto Alegre e São Paulo nos últimos meses —, suas ideias soavam quase proféticas.
Yu publicou mais de 20 livros e cerca de 300 artigos acadêmicos, além de colecionar prêmios prestigiados, como o Cooper Hewitt National Design Award e o RAIC International Prize. Não por acaso, estava em parceria com o brasileiro Luiz Ferraz para registrar tudo isso em um documentário. Era um projeto que unia ciência, arte e um olhar humano para um futuro urbano mais sustentável.
Luiz Fernando Ferraz, por sua vez, já tinha consolidado seu espaço no audiovisual. Fundador da Olé Produções, desde 2007 vinha explorando novas formas de contar histórias reais. Ele dirigiu a série Dossiê Chapecó: O Jogo por Trás da Tragédia, indicada ao Emmy Internacional, e também esteve por trás de produções internacionais, como To Win or To Win, que mergulha no universo do Al Nassr FC, time de Cristiano Ronaldo na Arábia Saudita.
O cineasta também assinou o documentário Paisagem Concreta, sobre o arquiteto português Álvaro Siza, exibido em festivais pelo mundo — dos Estados Unidos à Coreia do Sul. Sem contar a série Algo no Espaço, dedicada a artistas contemporâneos brasileiros. Claramente, era um profissional em plena ascensão, movido pela inquietação e pela busca de novas linguagens no cinema documental.
Entre as vítimas também está o paulistano Rubens Crispim Jr., documentarista que começou sua trajetória nas artes plásticas e depois se especializou em fotografia. Com mais de dez anos de experiência no audiovisual, Rubens conquistou reconhecimento em festivais internacionais. Participou de Cannes em 2009, com o curta O Que Escolhemos, e antes disso venceu o reality Projeto 48, exibido pelo canal TNT, em 2006.
Já o piloto Marcelo Pereira de Barros, embora menos conhecido do grande público, era figura importante no meio da aviação executiva. Amigos relatam que ele tinha experiência e cuidado com voos, o que torna o acidente ainda mais chocante.
As causas da queda ainda não foram esclarecidas. Por enquanto, o caso será investigado pelo Departamento de Repressão à Corrupção e ao Crime Organizado (Dracco), com apoio de equipes especializadas em acidentes aéreos. O local do impacto, segundo os bombeiros, é de difícil acesso, o que pode atrasar os trabalhos de perícia.
Tragédias assim nos lembram como a vida é frágil. Em um momento, quatro pessoas de talento, criatividade e contribuição gigantesca para suas áreas estavam voando rumo a mais um projeto. No instante seguinte, se foram, deixando famílias, amigos e uma legião de admiradores em choque.
É impossível não pensar no que ainda poderiam ter criado. O documentário sobre as cidades-esponja, por exemplo, tinha tudo para provocar debates urgentes sobre o futuro das metrópoles e o papel da natureza dentro delas. Agora, talvez reste a esperança de que esse legado seja continuado por outros que compartilhavam da mesma visão.