Nos últimos dias um anúncio meio bombástico sacudiu o universo do ativismo LGBT. Grupos que defendem gays, lésbicas e bissexuais decidiram soltar uma espécie de “declaração de independência”, rompendo oficialmente com o ativismo trans. A justificativa? Eles alegam que as pautas de identidade de gênero acabaram tomando o espaço e até abafando as demandas históricas de quem se identifica como L, G ou B.
Essa movimentação não é coisa pequena: envolve representantes de 18 países diferentes, entre eles Austrália, Canadá, Taiwan e até os Estados Unidos. O novo bloco recebeu o nome de LGB International e já chega levantando poeira. Para eles, antigos grupos do guarda-chuva LGBTQIA+ simplesmente deixaram de lado a defesa de homossexuais e bissexuais, optando por dar prioridade quase exclusiva às questões ligadas a identidade de gênero.
O presidente da coalizão, Frederick Schminke, deu uma entrevista ao jornal britânico The Telegraph e não economizou nas críticas. Segundo ele, essa guinada ameaça conquistas históricas que levaram décadas para serem alcançadas e, de quebra, silencia vozes críticas dentro da própria comunidade. Em outras palavras: quem discorda da pauta trans estaria sendo tratado como “inimigo interno”, quando na prática se trata de uma divergência legítima.
Um dos pontos levantados pela nova organização é que, mesmo em pleno 2025, a homossexualidade continua sendo crime em 64 países. E isso, na visão deles, deveria estar no topo da lista de preocupações, já que coloca vidas em risco. Além disso, houve críticas a situações consideradas absurdas: casos de homens heterossexuais que se autodeclaram lésbicas ou de mulheres heterossexuais que se dizem gays, exigindo acesso a espaços antes exclusivos, como clubes ou competições.
Na rede social X (antigo Twitter), a coalizão publicou um texto direto: “Esta é uma declaração de independência. Hoje, gays, lésbicas e bissexuais têm uma nova organização global”. A frase viralizou, gerando debate acalorado não só dentro da comunidade LGBT, mas também fora dela. Basta dar uma olhada nas respostas que a publicação recebeu para notar que o tema mexeu com os ânimos.
A decisão ganhou apoio de nomes conhecidos. Bev Jackson, fundadora da LGB Alliance, afirmou que há muito tempo via o movimento se distanciando das necessidades reais de gays, lésbicas e bissexuais. Para ela, a cisão era praticamente inevitável. No entanto, como sempre, há quem discorde: organizações como a ILGA-Europe e a Beaumont Society criticaram fortemente o rompimento, alegando que essa divisão enfraquece as vitórias já conquistadas e dá munição para opositores de direitos LGBT em geral.
Vale destacar que essa polêmica não surge do nada. Já há alguns anos existem tensões entre diferentes grupos dentro do movimento, com acusações de invisibilidade das pautas LGB frente ao crescimento das demandas trans. Só que agora a briga deixou de ser apenas um desentendimento interno e se transformou numa ruptura oficial, estampada nos jornais internacionais.
Se essa “independência” vai se consolidar ou não, ainda é cedo pra dizer. O certo é que ela escancara um debate real, que já vinha acontecendo nos bastidores, mas agora ganhou palco principal. Alguns enxergam a divisão como retrocesso, outros como um passo necessário para recolocar a luta LGB de volta nos trilhos.
E no meio de tudo isso, fica a sensação de que o movimento LGBT, tão acostumado a pregar unidade, enfrenta um de seus maiores testes nos últimos anos. Afinal, como lidar com pautas que nem sempre caminham na mesma direção? A resposta talvez demore, mas uma coisa já é evidente: essa disputa não vai desaparecer tão cedo e, pelo visto, ainda vai render muitos capítulos.