Nos últimos tempos, o debate sobre o papel da religião na política brasileira voltou com tudo, e agora ganhou mais um capítulo polêmico. A Open Society Foundations, rede internacional criada pelo bilionário George Soros, destinou em 2024 cerca de 150 mil dólares, algo em torno de R$ 802 mil, para financiar o documentário Apocalipse nos Trópicos. O filme, que já está disponível na Netflix desde julho, tem sido acusado de “demonizar” os evangélicos e reforçar uma visão negativa sobre o crescimento desse grupo no país.
A doação da fundação, conhecida por apoiar pautas progressistas e projetos ligados à esquerda, foi usada para cobrir a etapa final da produção e ajudar na sua distribuição internacional. Soros, o mesmo magnata húngaro-americano que já financiou estudos do ex-deputado Jean Wyllys e projetos como o Movimento Viva Rio, é frequentemente associado a iniciativas que promovem debates sobre drogas, minorias e democracia — temas que sempre despertam reações fortes por aqui.
O documentário foi dirigido pela cineasta Petra Costa, a mesma que ganhou projeção mundial com Democracia em Vertigem e chegou até a concorrer ao Oscar. Dessa vez, Petra se debruça sobre a expansão das igrejas evangélicas no Brasil, ligando esse fenômeno à ascensão política do ex-presidente Jair Bolsonaro nas eleições de 2018. Segundo ela, o movimento evangélico teria desempenhado um papel central na consolidação da direita no poder.
Em algumas passagens, a diretora destaca figuras conhecidas como o pastor Silas Malafaia, apontando-o como um dos principais articuladores entre fé e política. O tom do filme, porém, não é neutro — e é aí que mora o problema. Para boa parte do público, Apocalipse nos Trópicos transmite a ideia de que a fé foi usada como ferramenta de manipulação política, principalmente durante a pandemia e nas eleições de 2022.
A narrativa sugere que o movimento evangélico representa uma ameaça à democracia, lançando sobre o grupo o rótulo de “radical”. Esse ponto, aliás, tem causado grande repercussão nas redes sociais. Críticos acusam Petra e a Netflix de promoverem um discurso preconceituoso disfarçado de análise sociopolítica, enquanto outros defendem o filme como uma reflexão necessária sobre os riscos da mistura entre religião e poder.
Por trás do projeto está o Instituto Peri, uma organização criada em 2024 — justamente o mesmo ano em que recebeu o aporte da Open Society. De acordo com informações publicadas na página da própria instituição, a proposta seria “dar vida a histórias com potencial de mover grandes públicos”, sem fins lucrativos. Mesmo assim, o envolvimento da fundação de Soros levanta questionamentos sobre até que ponto há neutralidade nessa “missão cultural”.
O Instituto Peri atua como um braço da produtora Peri Productions, responsável pelo documentário, e funciona dentro de uma rede que articula ideias e projetos alinhados a uma visão política progressista global. Essa relação não é novidade — há anos, a Open Society financia movimentos semelhantes em diversos países, especialmente na América Latina, com o objetivo declarado de fortalecer a “democracia aberta”.
Entre críticos e defensores, o fato é que Apocalipse nos Trópicos conseguiu o que todo documentário busca: gerar debate. Para uns, é um ataque disfarçado de arte; para outros, uma denúncia corajosa sobre o poder das igrejas na política. No fim das contas, o público é quem decide o que é reflexão e o que é propaganda. E, como quase tudo no Brasil de hoje, o assunto promete render ainda muitas discussões — principalmente nas redes, onde cada curtida vale mais que um argumento.