O vereador Isaac Antunes (PL), atual presidente da Câmara Municipal de Ribeirão Preto, resolveu fazer um pedido inusitado ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF): ele quer autorização para entregar pessoalmente o título de cidadão rio-pretano ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
A homenagem, aprovada ainda em fevereiro deste ano, foi proposta e assinada pelo próprio Antunes. Segundo ele, trata-se de um gesto simbólico e de respeito à trajetória política de Bolsonaro, que, apesar das polêmicas, segue sendo uma das figuras mais influentes da direita brasileira — especialmente depois dos últimos desdobramentos envolvendo aliados e investigações em curso.
Em nota, o vereador explicou que, caso o ministro Moraes autorize o encontro, a cerimônia deve acontecer na residência do ex-presidente, em Brasília, onde Bolsonaro cumpre prisão domiciliar. A data ainda não foi definida, mas o parlamentar deixou claro que o evento seguirá todas as condições impostas pelo STF. “Nada de celulares, gravações ou postagens em redes sociais”, reforçou Antunes, em um tom de cautela que reflete o clima tenso entre apoiadores do ex-presidente e o Judiciário.
A entrega do título tem um caráter mais simbólico do que institucional. Em tempos recentes, políticos de diversas regiões do país têm usado esse tipo de homenagem como forma de manifestar apoio a Bolsonaro, que segue com uma base popular considerável, mesmo afastado das ruas. Em Ribeirão Preto, por exemplo, a concessão do título dividiu opiniões — enquanto parte da população viu a homenagem como um reconhecimento à liderança política do ex-presidente, outros criticaram o gesto, chamando de “politicagem” e “oportunismo eleitoral”, especialmente em um ano que já começa a respirar o clima das eleições municipais.
A situação jurídica de Bolsonaro continua complicada. Desde que foi colocado em prisão domiciliar, o ex-presidente vive sob forte vigilância, com restrições de comunicação e proibição de participar de eventos políticos. Ainda assim, ele continua exercendo influência nos bastidores do PL e se mantém ativo nas discussões internas sobre as eleições de 2026.
O pedido de Antunes a Moraes mostra como a figura de Bolsonaro ainda mobiliza prefeitos, vereadores e deputados em todo o país. Mesmo com as investigações e polêmicas envolvendo seus ex-ministros e aliados, o ex-presidente conserva um núcleo fiel de apoiadores que o tratam quase como um símbolo de resistência política.
Em entrevista recente a uma rádio local, Antunes disse que a homenagem não tem caráter político, mas “institucional e humano”. Segundo ele, “o título foi aprovado democraticamente pela Câmara, e seria justo que o próprio homenageado o recebesse em mãos”.
Nos bastidores, no entanto, o gesto é interpretado como um aceno à base bolsonarista da cidade, que deve ter papel importante nas próximas eleições. Antunes, que já aparece como um nome forte dentro do PL municipal, tenta consolidar sua imagem como aliado fiel de Bolsonaro, algo que ainda rende capital político em várias regiões do país, especialmente no interior paulista.
Vale lembrar que esse tipo de entrega fora do ambiente legislativo é incomum. Normalmente, as homenagens são feitas em sessões solenes, abertas ao público e à imprensa. Desta vez, porém, tudo deverá acontecer de forma discreta, com acesso restrito e sob vigilância das regras impostas pelo Supremo.
O caso, além de curioso, simboliza bem o atual momento político brasileiro: a mistura entre reverência, estratégia e disputa narrativa. Mesmo em prisão domiciliar, Bolsonaro continua sendo o centro de movimentações políticas e gestos simbólicos — como esse, de Ribeirão Preto, que mostra que sua influência ainda está longe de acabar.