Na manhã desta quarta-feira (29), a Câmara Municipal de São Paulo virou palco de uma confusão daquelas. O vereador Lucas Pavanato (PL-SP) barrou um pedido de um minuto de silêncio que seria feito em homenagem aos criminosos mortos durante a megaoperação policial no Rio de Janeiro, realizada na terça (28). O clima esquentou rápido e o que era pra ser uma sessão comum acabou virando um bate-boca generalizado.
A proposta da homenagem partiu da vereadora Luna Zarattini (PT-SP), que argumentou que todas as vidas perdidas mereciam respeito, independente de quem fossem. Mas a fala dela caiu como uma bomba no plenário. Pavanato reagiu imediatamente, com apoio dos colegas Rubinho Nunes e Adrilles Jorge, ambos também conhecidos por seus posicionamentos mais duros.
“Lugar de bandido é na cadeia ou na vala”, disparou Pavanato, visivelmente irritado. Segundo ele, a Câmara deveria guardar silêncio apenas pelos policiais que morreram em serviço, chamando-os de “as verdadeiras vítimas dessa guerra urbana”. O vereador ainda afirmou que homenagear criminosos seria uma “afronta à sociedade de bem” e à memória dos agentes que perderam a vida tentando garantir a segurança da população.
A fala gerou reações imediatas. Parte dos parlamentares aplaudiu de pé o discurso de Pavanato, enquanto outros criticaram o tom e a falta de empatia com as famílias dos mortos. Luna tentou rebater dizendo que “ninguém nasce bandido” e que a violência é fruto de uma desigualdade que o Estado ignora há décadas. A resposta dela, no entanto, foi interrompida por vaias e protestos de outros vereadores.
Nos corredores da Câmara, o assunto continuou rendendo. Nas redes sociais, o vídeo da discussão viralizou rapidamente, com milhares de comentários divididos. De um lado, internautas elogiando a postura firme de Pavanato e dizendo que ele “falou o que o povo pensa”. Do outro, críticas apontando que o vereador teria agido com desumanidade e politizado uma tragédia.
A megaoperação no Rio de Janeiro, que motivou todo o debate, foi uma das mais letais do ano. Segundo as autoridades, mais de 40 pessoas morreram, incluindo quatro policiais. A ação envolveu diversas forças de segurança e aconteceu em comunidades dominadas por facções criminosas. O governador Cláudio Castro defendeu a operação, dizendo que o Estado “não se ajoelha para o crime”. Já entidades de direitos humanos criticaram o que chamaram de “banho de sangue” e pediram investigação sobre possíveis abusos.
Esse tipo de embate político não é novidade na Câmara paulistana, onde discussões entre direita e esquerda costumam pegar fogo quando o assunto envolve segurança pública. Pavanato, que vem crescendo como um dos nomes mais barulhentos da nova direita, tem usado essas pautas como bandeira. Já Luna Zarattini, que segue a linha mais progressista, tenta pautar o debate em torno da violência policial e da desigualdade social.
No fim das contas, o minuto de silêncio não aconteceu. A sessão foi retomada com clima tenso e trocas de farpas que duraram até o encerramento. Mas o episódio acabou indo além das paredes do plenário — virou mais um retrato da divisão política que marca o país hoje, em que até um gesto simbólico como um minuto de silêncio pode gerar uma guerra de narrativas.
E enquanto o Rio ainda tenta contabilizar os mortos e entender o tamanho do estrago da operação, São Paulo já mostrou que o debate sobre segurança pública está longe de ser pacífico.