ONG da advogada de Marcinho VP, do Comando Vermelho, fará reunião com Alexandre de Moraes

Uma reunião tensa e cheia de expectativas deve acontecer nesta quarta-feira (5/11) em Brasília. O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), vai receber representantes de uma ONG presidida pela advogada Flávia Fróes — a mesma que já defendeu o famoso traficante Marcinho VP, um dos chefes do Comando Vermelho. O encontro promete levantar polêmica, principalmente por causa do tema: a megaoperação no Rio de Janeiro que terminou com ao menos 121 mortos.

Flávia Fróes é presidente do Instituto Anjos da Liberdade, e foi a própria entidade que pediu a audiência com Moraes. Segundo ela, o objetivo é entregar um dossiê sobre possíveis casos de tortura durante a operação. O material, segundo a advogada, teria sido elaborado por uma equipe de peritos voluntários que atuam junto à ONG.

Essa reunião faz parte da ADPF das Favelas, uma ação movida pelo PSB para monitorar as operações policiais no Rio de Janeiro e evitar abusos em comunidades. Depois da aposentadoria de Luís Roberto Barroso, o caso passou a ser relatado por Moraes, que agora será o responsável por analisar as denúncias apresentadas pelas organizações.

O Instituto Anjos da Liberdade também já havia levado o caso para a Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH). Lá, pediu medidas urgentes de proteção para os familiares das vítimas e defensores de direitos humanos. No documento, a ONG solicitou ainda o afastamento dos policiais envolvidos nas mortes, a preservação das provas e até a suspensão de grandes operações no estado.

Apesar disso, o grupo não conseguiu participar da reunião anterior entre Moraes e o governador Cláudio Castro (PL). O pedido de inclusão das ONGs foi recusado. Procurado, o Supremo Tribunal Federal ainda não se pronunciou sobre o assunto.

Relação com Marcinho VP e polêmicas

Flávia Fróes se tornou conhecida por defender grandes nomes do crime organizado, entre eles Marcinho VP, que cumpre pena há quase 30 anos. Condenado por assassinato e esquartejamento de rivais, ele é apontado como um dos líderes do Comando Vermelho ao lado de Fernandinho Beira-Mar.

A advogada diz, porém, que não atua mais em casos ligados ao tráfico há três anos. Mesmo assim, ela ainda representa Marcinho em um processo específico. Segundo Fróes, a associação entre seu nome e o crime organizado não deveria deslegitimar sua atuação jurídica. “O Instituto Anjos da Liberdade está habilitado na ADPF desde 2019. Não é a advogada do Marcinho que vai à reunião, é a presidente do instituto”, afirmou.

Durante a operação no Rio, Flávia contou que esteve em locais de confronto e registrou fotos de cerca de 30 corpos com sinais de execução, incluindo tiros na nuca e cortes profundos. As imagens, segundo ela, foram feitas com autorização das famílias, justamente para impedir que os corpos fossem enterrados sem documentação adequada.

Além de advogada, Flávia já tentou entrar na política. Em 2022, concorreu a uma vaga na Câmara dos Deputados, mas não conseguiu se eleger. Na época, o jornal O Globo revelou que ela teria pedido apoio de Marcinho VP durante a campanha. Mais tarde, um inquérito da Polícia Federal investigou o suposto repasse de dinheiro do Comando Vermelho para financiar parte de sua candidatura — incluindo a compra de um BMW de R$ 280 mil. Ela sempre negou as acusações.

Agora, com a reunião marcada no STF, Flávia volta aos holofotes. Ela insiste que a pauta é de direitos humanos, não de defesa de facções. “A gente reuniu relatos, fotos e depoimentos que indicam tortura. O que queremos é que isso seja investigado”, disse.

O caso promete render muito barulho político e jurídico. A presença de uma ex-advogada de traficante numa audiência com um ministro do Supremo reacende a discussão sobre os limites entre o ativismo e a atuação profissional. E, no meio disso tudo, ficam as famílias das vítimas — ainda em busca de respostas sobre o que realmente aconteceu na megaoperação mais letal da história recente do Rio.



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