O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-RJ) voltou a causar burburinho nas redes sociais nesta quarta-feira (5/11) depois de comentar uma carta do governo dos Estados Unidos em apoio à Polícia do Rio de Janeiro. O parlamentar, que segue morando nos EUA desde que se autoexilou, compartilhou o documento e afirmou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva “se posiciona em defesa dos bandidos”.
A carta, enviada pelo Consulado-Geral dos EUA no Rio, lamenta a morte dos quatro policiais que perderam a vida durante a megaoperação nos complexos do Alemão e da Penha, no dia 28 de outubro. Essa operação, que durou horas e envolveu um grande contingente das forças de segurança, terminou com 121 suspeitos mortos — um número que vem sendo duramente criticado por entidades de direitos humanos e parte da sociedade civil.
Na publicação feita na plataforma X (antigo Twitter), Eduardo exibiu lado a lado o conteúdo da carta americana e uma manchete do portal Metrópoles, que noticiava que o governo Lula estuda oferecer auxílio a familiares das vítimas da operação no Rio. “Governo dos EUA/@realDonaldTrump manda carta em apoio à polícia do Rio. Lula se posiciona em defesa dos bandidos. Você ainda acha que isso é sobre soberania nacional? Não estamos no meio de uma guerra do bem contra o mal. Não é possível que você ainda não saiba como se posicionar”, escreveu o deputado, repetindo o tom moralista e polarizado que costuma marcar seus discursos, alinhados ao do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Apesar de citar Donald Trump, o ex-presidente americano, a carta foi enviada por representantes oficiais do atual governo dos EUA, que hoje é liderado por Joe Biden, adversário político de Trump. Mesmo assim, Eduardo utilizou a referência como símbolo ideológico, reforçando o discurso da direita brasileira de apoio irrestrito às forças de segurança e crítica às políticas sociais do governo petista.

O texto do consulado, endereçado ao secretário de Estado de Segurança Pública do Rio de Janeiro, Victor Cesar, é mais protocolar. Nele, o órgão expressa solidariedade e reconhecimento aos policiais mortos, destacando o valor e o sacrifício envolvidos no exercício da profissão. “Sabemos que a missão de proteger a sociedade exige coragem, dedicação e sacrifício, e reconhecemos o valor e a honra desses profissionais que deram suas vidas em defesa da segurança pública”, diz um trecho.
O caso reacendeu o debate sobre os limites das operações policiais em comunidades do Rio e a falta de controle sobre o número de mortes em ações do tipo. A operação de outubro foi uma das mais letais da história recente do estado, superando até mesmo algumas ocorridas durante o governo de Wilson Witzel, conhecido por sua política de confronto direto contra o crime organizado.
Críticos do governo fluminense afirmam que os números mostram mais um massacre do que uma ação de segurança pública, enquanto aliados do governador Cláudio Castro (PL) defendem que o alto número de mortos seria resultado da resistência armada de criminosos fortemente equipados.
Enquanto isso, o presidente Lula tem evitado entrar em polêmicas diretas sobre o tema, mas integrantes do seu governo já confirmaram que há discussões sobre ajuda financeira e psicológica a famílias atingidas pela operação. A iniciativa, segundo fontes do Ministério dos Direitos Humanos, busca dar suporte a comunidades que vivem sob constante tensão e violência.
O episódio mostra mais uma vez como o debate político no Brasil se mistura com temas de segurança e ideologia. De um lado, a retórica bolsonarista que exalta a polícia e demoniza qualquer tentativa de diálogo com favelas. Do outro, o governo petista tentando equilibrar o discurso humanitário sem parecer conivente com o crime. No meio disso tudo, quem sofre — e morre — continua sendo o povo das comunidades cariocas.