O clima entre os aliados de Jair Bolsonaro anda cada vez mais tenso. O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) voltou a causar polêmica ao compartilhar, no X (antigo Twitter), uma publicação que acusa o também deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) de tentar se “livrar” politicamente do ex-presidente.
“A briga na direita que todos estão vendo é simples. Nikolas quer se livrar do Bolsonaro de vez. Ele está liderando uma dissidência, e vários políticos mais jovens estão com ele. O problema? O de sempre: ‘Temos que nos descolar do Bozo sem perder o eleitor.’ Eles querem continuar sendo eleitos pelos bolsonaristas, mas não querem mais prestar contas ao Bolsonaro”, afirma o texto.
Ou seja, o texto sugere que Nikolas estaria tentando construir uma nova ala dentro da direita, mais “moderninha” e menos dependente da imagem de Jair Bolsonaro, mas sem abrir mão dos votos que vêm do bolsonarismo. Um jogo político arriscado, mas que tem sido comentado por analistas nas redes e até em bastidores de Brasília.
Essa, porém, não é a primeira vez que Eduardo critica o colega mineiro publicamente. Lá em julho deste ano, o filho 03 do ex-presidente disse que era “triste ver a que ponto o Nikolas chegou”. A fala, na época, repercutiu forte entre os apoiadores, que se dividiram nas redes.
Pra piorar a situação, o nome de ambos voltou a aparecer no relatório da Polícia Federal (PF) que embasou o indiciamento de Jair Bolsonaro e do próprio Eduardo por coação. O documento apontou que o deputado teria compartilhado com o pai críticas diretas ao correligionário, justamente naquele mesmo mês de julho.
De acordo com a PF, as mensagens foram trocadas no dia 17 de julho, via WhatsApp. Eduardo teria encaminhado ao ex-presidente dois links do X, ambos com postagens que criticavam Nikolas Ferreira pela falta de apoio público a manifestações pró-Bolsonaro. Segundo os investigadores, as publicações também insinuavam uma tentativa do mineiro de se “descolar” da imagem do ex-chefe do Planalto — algo que Eduardo parece ter levado bastante a sério.
Uma das mensagens reproduzidas no relatório diz o seguinte:
“Divulgar a manifestação na Av. Paulista, zero. Divulgar palestra em Curitiba, vale até repostar o Silvio Grimaldo. Jair Bolsonaro está em BH, já já veremos na prática a arte de ‘colar no Bozo’ pra depois ‘descolar do Bozo’.”
A frase, além de escancarar o tom de ironia, mostra como a relação entre os dois parlamentares tem se desgastado nos bastidores. Quem acompanha o cenário político sabe que Nikolas Ferreira vinha crescendo muito dentro da direita, principalmente entre os jovens nas redes sociais — hoje ele é um dos deputados mais seguidos do país. Por outro lado, Eduardo, que sempre foi uma das vozes mais fiéis do bolsonarismo, parece não ter digerido bem essa ascensão.
Nos últimos meses, especula-se até que parte da base conservadora estaria dividida entre o “bolsonarismo raiz”, liderado pelos filhos do ex-presidente, e uma vertente mais “influencer”, puxada por figuras como Nikolas, que tentam renovar a imagem do movimento.
Enquanto isso, Jair Bolsonaro segue enfrentando seus próprios problemas na Justiça e com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o que deixa o ambiente ainda mais delicado. O racha entre aliados, se confirmado, pode enfraquecer o grupo às vésperas das eleições municipais de 2024, quando o apoio bolsonarista será um trunfo importante em várias cidades.
No fim das contas, essa briga expõe algo que muita gente já percebeu: dentro da própria direita, há uma disputa silenciosa por protagonismo. E, ao que tudo indica, o nome “Bolsonaro” — que antes unia — agora começa a dividir.