Lindemberg tem medo do ‘pai matador’ de Eloá e revela pesadelos de arrepiar

A cada vez que Lindemberg Alves cruza o portão da penitenciária de Tremembé nas famosas “saidinhas”, um clima pesado parece caminhar junto com ele. O homem condenado pela morte da adolescente Eloá Pimentel, em 2008, tenta se camuflar como dá: capuz enterrado na testa, máscara puxada até quase o nariz e óculos escuros enormes. À primeira vista, parece só mais alguém tentando fugir de vírus ou de câmeras curiosas, mas não é nada disso. O que realmente o move é o medo — um pavor antigo, entranhado — de topar cara a cara com o pai da jovem que ele tirou a vida.

Esse lado mais sombrio da rotina do condenado aparece no livro Tremembé, escrito pelo jornalista Ullisses Campbell, que já investigou de perto vários bastidores do sistema prisional brasileiro. No livro, Campbell descreve que dentro da cadeia o próprio Lindemberg admite ter cometido um dos crimes mais desprezados até entre outros detentos: matar uma adolescente. Não é o tipo de coisa que “pega bem” nem no pior dos ambientes. Por isso, ele vive entre dois medos diferentes: o de ser atacado por presos revoltados e, mais ainda, o de sofrer uma vingança direta.

E o nome dessa possível vingança tem peso. Everaldo Pereira dos Santos, conhecido como “Amarelo”, é o pai de Eloá. Hoje já com 61 anos, ele tem uma ficha que não é nada pequena. Antes de ser preso, era apontado como integrante da chamada “gangue fardada”, um grupo de extermínio formado por policiais militares de Alagoas. Chegou a ser acusado de matar um delegado e, durante mais de dez anos, circulou como foragido usando identidade falsa. Morava em São Paulo, discreto, quase invisível, até que o destino — e as câmeras de TV — cruzaram seu caminho de forma inesperada.

Enquanto ocorria o cerco ao apartamento onde Eloá era mantida refém por Lindemberg, o país inteiro acompanhava tudo ao vivo. Em meio à confusão, Everaldo passou mal e foi amparado em frente ao prédio. A cena, que rodou os noticiários, acabou chamando a atenção de autoridades de Alagoas, que o reconheceram na hora. O homem que chorava pela filha era também um condenado à revelia por duplo homicídio qualificado: o do delegado Ricardo José Lessa Santos, irmão do ex-governador Ronaldo Lessa, e do motorista dele, José da Costa Dantas.

E não para por aí. Em 1993, “Amarelo” foi apontado como suspeito de assassinar a própria ex-mulher, Marta Lúcia Alves Vieira. O corpo dela foi encontrado em um canavial — degolada, queimada e esfaqueada — um crime brutal que marcou a região. A repercussão nacional do caso Eloá acabou puxando esse passado do pai novamente à tona, levando à prisão dele, em 2009, num sítio da família em Maceió.

Com o passar dos anos, Everaldo progrediu de regime e voltou a morar em São Paulo. Ironia ou coincidência cruel do destino, ele se estabeleceu no mesmo conjunto habitacional onde vive a mãe de Lindemberg — justamente o local para onde o assassino costuma se dirigir nas saídas temporárias.

Esse detalhe só reforça o pânico do condenado. Lindemberg praticamente não sai durante o dia e evita qualquer tipo de conversa com vizinhos. Nos laudos psicológicos feitos na prisão, ele relatou ter pesadelos frequentes envolvendo o pai de Eloá. Sonhos pesados, quase cinematográficos, que misturam culpa, medo e lembranças do crime. Em um deles, descrito por Campbell, ele aparece algemado num canavial em chamas, cercado por homens encapuzados e fardados. Everaldo surge mascarado, segurando um facão, enquanto Eloá — num elemento claramente simbólico — ordena: “Faça o que você me prometeu, meu pai.” O pesadelo termina com a decapitação de Lindemberg.

Entre o terror noturno e o medo diurno, o condenado segue vivendo à sombra do passado, perseguido por fantasmas reais e imaginados — e por um pai cujo nome ele faz questão de evitar até em pensamento.



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