O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), decidiu abrir a sessão desta terça-feira (9/12) mesmo depois do clima pesado que tomou conta do plenário. Minutos antes, o deputado Glauber Braga (PSol-RJ) havia sido retirado à força da Mesa Diretora, numa cena que circulou rápido pelas redes sociais e deixou o ambiente político ainda mais inflamado no já conturbado fim de ano legislativo em Brasília.
Motta, com aquele tom calculado que ele costuma adotar em dias tensos, afirmou que ainda vai se pronunciar oficialmente sobre o episódio. Segundo parlamentares presentes, a confusão não ficou restrita ao deputado psolista: jornalistas e servidores também acabaram empurrados, alguns falando até em agressões. Nos corredores, o assunto dominava, enquanto assessores tentavam reorganizar o fluxo de entrada que ficou totalmente comprometido após o tumulto.
A sessão desta noite tinha um ingrediente extra de tensão: a votação do chamado PL da Dosimetria, projeto que mexe justamente nas penas de condenados por participação na trama golpista de 2023 — um tema que continua a dividir profundamente a Câmara e reacender debates acalorados nas redes, especialmente após as últimas decisões do STF envolvendo os réus dos atos daquele ano. O projeto segue na pauta e, segundo aliados de Motta, deve ser votado ainda hoje, mesmo com o ambiente turbulento.
Toda a confusão começou quando Glauber anunciou que ocuparia a cadeira da Presidência como forma de protesto, após Motta marcar para quarta-feira (10/12) a votação de sua cassação. Foi um gesto calculado, dramático até, como o próprio deputado costuma fazer em embates públicos. Só que a reação foi ainda mais dura: agentes da Polícia Legislativa entraram e o retiraram arrastado pelo plenário, uma imagem que imediatamente viralizou, gerando debates sobre abuso de poder e limites da atuação policial dentro da Casa.
Durante os instantes em que Glauber estava na cadeira da Presidência, ocorreu um fato que levantou ainda mais suspeitas: as transmissões oficiais da Câmara foram derrubadas. Quem acompanhava pelo canal institucional simplesmente viu a tela sumir. Paralelamente, jornalistas e servidores relataram que foram impedidos de entrar no plenário, algo incomum até em dias de votação sensível. “Parecia que não queriam testemunhas”, comentou um repórter que cobre a Casa há mais de uma década.
Glauber, que já tem histórico de confrontos diretos com lideranças do centrão, está no centro de um processo de cassação desde que ele, em 2024, retirou aos chutes um militante do Movimento Brasil Livre (MBL) da Câmara. O caso ganhou grande repercussão à época, com vídeos viralizando no X (antigo Twitter) e dividindo opiniões — uns dizendo que ele passou dos limites, outros que reagiu a provocações.
O deputado não hesita em apontar o dedo: acusa o ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL) de estar por trás da articulação pela sua cassação. Segundo ele, trata-se de retaliação às críticas constantes que fazia à gestão de Lira, principalmente sobre a distribuição e execução das emendas parlamentares — assunto que rendeu brigas, dossiês circulando e até discussões públicas ao longo de 2023 e 2024.
Nos bastidores, deputados comentam que o caso de Glauber é apenas mais um capítulo da guerra interna que continua dividindo a Casa mesmo após o fim da era Lira. E, com a proximidade do recesso, tudo parece ficar ainda mais à flor da pele.
No fim das contas, a terça-feira que deveria ser apenas “mais uma votação” acabou se tornando mais um daqueles dias que entram para o folclore político de Brasília: confusão, expulsão, transmissão cortada, acusações cruzadas e muita disputa por narrativa — ingredientes que, infelizmente, têm se tornado rotina no Congresso.