Lula fala com Maduro e, poucas horas depois, com Trump

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a movimentar discretamente os bastidores da diplomacia sul-americana. No dia 21 de novembro, Lula teve duas conversas telefônicas de peso: uma com Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, e outra — bem mais silenciosa — com o líder venezuelano Nicolás Maduro. Essa segunda ligação, aliás, ficou guardada a sete chaves até vir a público nesta quinta-feira (11), em reportagem do jornal O Globo. A revelação reacendeu debates sobre a relação entre Brasília e Caracas, que, convenhamos, sempre chega carregada de ruído.

De acordo com a colunista Janaína Figueiredo, essa foi a primeira conversa “amistosa” entre Lula e Maduro depois do estresse provocado pelas eleições venezuelanas do ano passado. Na ocasião, o Brasil se recusou a validar o resultado sem a apresentação das atas eleitorais, atitude que desagradou fortemente o governo chavista. Desde então, pairava no ar um clima de desconfiança — algo meio mal explicado, mas perceptível até por quem só acompanha política pelos resumos no X (antigo Twitter).

A ligação, segundo apuração de Igor Gadelha, do portal Metrópoles, foi descrita pela Secretaria de Imprensa da Presidência como “relativamente rápida”. Nada de papo longo, sem aquelas conversas extensas que Lula às vezes costuma ter com aliados históricos. O tema central, conforme informado, foi a “paz no Caribe e na América do Sul”, uma pauta que vem ganhando peso nas últimas semanas por causa da tensão crescente entre a Venezuela e os Estados Unidos, especialmente depois das declarações mais duras de Trump sobre o futuro de Maduro.

As fontes próximas ao Planalto evitaram dar detalhes mais profundos, o que, sinceramente, já virou padrão nesses assuntos sensíveis. Mesmo assim, reforçaram que o Brasil precisa manter algum canal com Maduro para não perder espaço como mediador em possíveis negociações. Com um clima internacional cada vez mais volátil — vide o conflito no Oriente Médio, a instabilidade no Haiti e até os debates da COP 30 em Belém —, Lula vem tentando reforçar a ideia de que o Brasil é peça-chave na diplomacia do continente.

Durante a conversa, Lula demonstrou preocupação com o aumento da tensão e se colocou à disposição para ajudar “no que for possível”, frase clássica da diplomacia lulista. Maduro, por outro lado, manteve um tom mais reservado. Não mencionou os ultimatos recentes de Donald Trump, que chegou a exigir publicamente que ele deixasse o poder, o que só acirrou ainda mais o debate internacional sobre o futuro político da Venezuela.

O silêncio do governo brasileiro sobre a ligação não aconteceu por acaso. Internamente, assessores do Planalto avaliam que qualquer gesto em direção à Venezuela pode gerar desgaste. A imagem de Maduro no Brasil segue bem dividida: uma parte da população vê o líder venezuelano com desconfiança, enquanto outra considera legítimo manter diálogo institucional. Em um cenário pós-eleição municipal e com 2026 já aparecendo no horizonte político, Lula tenta evitar ruídos desnecessários.

Outro ponto que pesou foi a recente visita do empresário Joesley Batista a Caracas, onde ele se encontrou com Maduro. O episódio levantou perguntas nos bastidores: seria o momento ideal para expor publicamente uma reaproximação? A resposta, pelo visto, foi não — ao menos até a repercussão do telefonema escapar para a imprensa.

No fim das contas, o que se sabe é que Lula e Maduro voltaram a conversar, e isso, por si só, já movimenta a política externa brasileira. O restante fica na penumbra típica dos bastidores diplomáticos, onde muita coisa acontece, mas quase nada aparece de imediato. O Planalto, ao que tudo indica, pretende seguir com cautela, conversando quando necessário, mas anunciando só quando inevitável.



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