O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) resolveu, depois de muito tempo em silêncio, falar abertamente sobre um dos episódios mais difíceis da sua vida, tanto no lado pessoal quanto político. Foi o câncer na laringe, diagnosticado lá em 2011, num momento em que pouca gente sabia de fato o que ele estava enfrentando fora dos holofotes e dos discursos inflamados.
Durante uma coletiva de imprensa recente, Lula relembrou detalhes desse período complicado e acabou se emocionando ao falar de Marisa Letícia, sua então esposa, que morreu em 2017. Segundo ele, Marisa teve um papel decisivo, quase teimoso, para que a doença fosse descoberta a tempo. Se não fosse por ela, talvez a história tivesse sido bem diferente, como o próprio presidente deu a entender.
Lula contou que, na época, não desconfiava de nada muito grave. Sentia febre, a garganta irritada, aquela coisa que muita gente acha que é só uma inflamação qualquer. Procurou um médico, ouviu que estava tudo inflamado e saiu com um remédio na mão. Vida que segue. Mas Marisa não ficou convencida. Ela insistiu que ele fizesse exames mais completos, mesmo sem ele querer muito. Entre esses exames, estava o tal do PET scan, capaz de identificar tumores no corpo.
“Eu não imaginava que fosse algo sério”, disse Lula, em tom visivelmente abalado. Foi aí que ele reconheceu publicamente que a insistência da esposa acabou salvando sua vida. Sem esse exame mais aprofundado, o câncer poderia ter sido descoberto tarde demais. É o tipo de coisa que só a convivência próxima, quem conhece a rotina da pessoa, consegue perceber.
O tratamento começou logo depois do diagnóstico e, felizmente, deu certo. No início de 2012, a equipe médica anunciou oficialmente a remissão do câncer. Naquele momento, Lula venceu uma batalha silenciosa, longe das disputas políticas, das eleições e das manchetes mais barulhentas. Anos depois, ao tornar essa história pública com mais detalhes, ele reforçou algo que médicos vivem repetindo, mas nem sempre é levado a sério: diagnóstico precoce faz toda a diferença.
O presidente também aproveitou para falar sobre a importância do apoio familiar nesses momentos. Segundo ele, enfrentar uma doença grave não é só uma questão de remédio ou hospital, mas também de ter alguém ao lado que puxa a orelha, cobra, insiste e não deixa a gente relaxar quando não pode. No caso dele, esse alguém foi Marisa.
Essa experiência pessoal acabou influenciando também decisões políticas tomadas mais tarde. Lula relembrou que, ao perceber como teve acesso rápido a exames e tratamento, começou a refletir sobre a realidade de milhões de brasileiros que não têm a mesma facilidade. Muita gente espera meses por um exame, às vezes anos, e quando descobre a doença já está em estágio avançado. Isso, segundo ele, é injusto.
Motivado por essa vivência, Lula afirmou que assinou projetos e apoiou iniciativas voltadas à ampliação e agilização do acesso a exames e tratamentos contra o câncer pelo SUS. Ele destacou que saúde não pode ser privilégio de quem tem dinheiro ou influência. Em tempos em que o debate sobre o sistema público de saúde volta com força, especialmente após a pandemia, esse tipo de relato ganha ainda mais peso.
Ao abrir o coração sobre o câncer, Lula não falou só como presidente, mas como alguém que passou pelo medo, pela dúvida e pela fragilidade. É um lado menos conhecido do político, mais humano, mais próximo da realidade de tanta gente que enfrenta problemas parecidos todos os dias, longe das câmeras e dos palanques.