O governo interino da Venezuela anunciou, nesta quinta-feira (8/1), uma decisão que pegou muita gente de surpresa e reacendeu debates dentro e fora do país: a libertação de prisioneiros políticos. O anúncio foi feito pelo presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, durante um discurso transmitido por canais oficiais. Segundo ele, a medida tem como objetivo “consolidar a paz” e abrir um novo momento político em Caracas, após dias de tensão extrema.
De acordo com Rodríguez, a libertação vai atingir tanto cidadãos venezuelanos quanto estrangeiros que estavam presos por motivos políticos. Ainda não há uma lista oficial de nomes nem o número exato de pessoas beneficiadas. O chefe do Parlamento se limitou a dizer que se trata de um “número importante”, expressão que deixou margem para várias interpretações e gerou expectativa entre familiares de detentos e organizações internacionais.
Jorge Rodríguez, que é irmão da atual presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, fez questão de ressaltar que a decisão é um gesto “unilateral” do governo venezuelano. Segundo ele, não houve qualquer tipo de negociação formal com forças políticas internas nem com governos estrangeiros. A fala foi vista como uma referência direta aos Estados Unidos, que recentemente capturaram o presidente Nicolás Maduro durante uma ofensiva militar que mudou completamente o cenário político do país.
Apesar do tom de autonomia, Rodríguez reconheceu a atuação de figuras internacionais que, segundo ele, ajudaram a manter canais de diálogo abertos nos últimos anos. Entre os nomes citados estão o ex-presidente da Espanha, José Luis Rodríguez Zapatero, o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e representantes do governo do Catar. Ele agradeceu o envolvimento desses atores na tentativa de reduzir tensões e buscar uma saída menos traumática para a crise venezuelana.
O anúncio da libertação de presos políticos não veio isolado. Ele faz parte de uma série de medidas adotadas desde o último fim de semana, quando Nicolás Maduro foi capturado após ataques dos Estados Unidos em território venezuelano. A queda do líder chavista marcou um ponto de virada histórico e abriu espaço para uma reconfiguração rápida do poder em Caracas.
Nos dias seguintes à captura de Maduro, o governo interino passou a enviar sinais considerados positivos a Washington. Isso ocorreu logo após o ex-presidente norte-americano Donald Trump afirmar publicamente que os Estados Unidos deveriam assumir o controle administrativo da Venezuela durante um período de transição. A declaração causou polêmica internacional, mas foi tratada com cautela pelas novas autoridades venezuelanas.
Delcy Rodríguez, que assumiu a presidência interina, já demonstrou disposição para cooperar com os EUA. Horas depois de Trump dizer que a liderança venezuelana poderia pagar um “preço alto” caso não colaborasse, integrantes do novo governo reforçaram o discurso de pragmatismo e diálogo. Nos bastidores, a avaliação é de que o país não tem margem para mais isolamento econômico ou diplomático.
Um dos sinais mais claros dessa mudança veio do setor petrolífero. A PDVSA, maior estatal de petróleo da Venezuela, anunciou o início de negociações para a venda de petróleo cru diretamente aos Estados Unidos. A medida vai ao encontro dos interesses de Washington e também é vista como uma tentativa de recuperar parte da economia venezuelana, duramente afetada por sanções, má gestão e anos de crise.
Enquanto isso, nas ruas, o clima ainda é de incerteza. Há quem veja as libertações como um passo necessário e tardio, e quem desconfie das reais intenções do novo governo. Familiares de presos políticos aguardam ansiosos por informações concretas, nomes e datas. Já a comunidade internacional observa com atenção cada movimento, sabendo que qualquer decisão agora pode definir o futuro da Venezuela por muitos anos.