Em meio a mais um capítulo tenso da crise na Venezuela, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) resolveu se mexer nos bastidores da diplomacia internacional. Na última quinta-feira (8), Lula fez uma verdadeira rodada de telefonemas e conversou com três líderes importantes do continente e fora dele: o presidente da Colômbia, Gustavo Petro; a presidente do México, Claudia Sheinbaum; e o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney. O pano de fundo foi um só: a escalada de ações militares recentes contra o território venezuelano e o temor de que a situação saia completamente do controle.
As conversas foram divulgadas oficialmente pelo governo brasileiro e, apesar de cada ligação ter suas particularidades, todas giraram em torno de um ponto central: a oposição ao uso da força e a defesa de uma saída diplomática para a crise. Lula e os outros líderes demonstraram preocupação com o impacto que ataques armados podem gerar não só na Venezuela, mas em toda a região, já marcada por instabilidade política e econômica.
Segundo relatos do Planalto, em todos os diálogos houve um alerta claro sobre o risco de normalizar intervenções militares. Para Lula, esse tipo de ação cria um “precedente perigoso”, algo que pode enfraquecer ainda mais a diplomacia internacional, que já anda bastante desacreditada nos últimos anos.
Na conversa com o presidente colombiano Gustavo Petro, o tom foi de especial apreensão. Brasil e Colômbia dividem uma longa fronteira com a Venezuela e também lidam diariamente com os efeitos da migração em massa de venezuelanos. Os dois líderes concordaram que qualquer solução para a crise precisa ser pacífica e construída sem imposições externas. Nada de bombas, nada de ameaças.
Lula aproveitou a ligação para informar Petro sobre uma medida prática adotada pelo Brasil: o envio de 40 toneladas de insumos e medicamentos à Venezuela. O material atende a um pedido do governo venezuelano e tem como objetivo repor estoques essenciais, principalmente produtos usados em tratamentos de diálise, que teriam sido destruídos em bombardeios recentes. Para Lula, ajuda humanitária não pode ser confundida com apoio político, é uma questão básica de humanidade.
Já no contato com o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, o presidente brasileiro foi direto ao ponto. Condenou o uso da força sem qualquer respaldo legal internacional e defendeu que “o destino da Venezuela deve ser decidido soberanamente por seu próprio povo”. Ambos também conversaram sobre um tema mais amplo: a necessidade de reformar as instituições de governança global, consideradas ultrapassadas diante dos conflitos atuais.
A ligação com o Canadá rendeu, inclusive, agenda futura. Carney aceitou o convite para visitar o Brasil em abril, quando os dois países devem avançar nas negociações de um acordo comercial entre o Mercosul e o Canadá, algo que vem sendo discutido há anos, mas sempre emperra em detalhes políticos.
Com a presidente do México, Claudia Sheinbaum, Lula voltou a criticar duramente os ataques à Venezuela. Os dois líderes rejeitaram o que chamaram de visão “ultrapassada” de dividir o mundo em blocos rivais, discurso que voltou a ganhar força após declarações recentes de Donald Trump, que já chegou a citar possíveis invasões a países da região. Lula e Sheinbaum reforçaram a defesa do multilateralismo e do livre-comércio como caminhos mais seguros.
A conversa também trouxe resultados concretos. Lula convidou Sheinbaum para visitar o Brasil e ambos concordaram em estabelecer uma cooperação específica no combate à violência contra a mulher, tema sensível e urgente nos dois países. No fim das contas, Lula tenta mostrar que, enquanto alguns apostam na força, o Brasil segue insistindo no diálogo, mesmo que isso pareça fora de moda em tempos tão duros.