A proposta lançada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para criar um novo “Conselho de Paz” voltado à situação em Gaza caiu como um balde de água fria em Brasília. Longe de empolgar, a ideia foi recebida com bastante pé atrás por integrantes do governo Lula, que, nos bastidores, tratam o assunto com cautela e até certo ceticismo. Oficialmente, ninguém bateu o martelo. Mas, fora do microfone, o clima é outro.
Enquanto o Itamaraty e o Planalto dizem que ainda estão “avaliando” a proposta, assessores próximos ao presidente já arriscam um diagnóstico quase definitivo: dificilmente esse conselho vai sair do papel. E não é por falta de boa vontade do Brasil, segundo eles, mas por ausência de apoio internacional consistente. Um projeto desse tamanho, avaliam, não se sustenta apenas com discurso forte e anúncio em rede social.
Dentro do governo, a leitura é que a iniciativa de Trump nasceu frágil. Auxiliares de Lula classificaram a proposta como “pior do que o esperado”, principalmente porque não veio acompanhada de sinais claros de adesão de grandes potências europeias. França, Alemanha e outros países centrais da União Europeia, até agora, não demonstraram entusiasmo. E isso pesa, e muito, na balança brasileira.
Esse detalhe virou, inclusive, o principal argumento de reserva do Planalto. Caso fique evidente que o Conselho de Paz é um projeto isolado ou restrito a aliados mais próximos dos EUA, o Brasil poderá recusar o convite sem comprar uma briga direta com Washington. A justificativa já está pronta: defesa do multilateralismo, fortalecimento da ONU e respeito aos fóruns internacionais já existentes. Um discurso que o governo Lula vem repetindo desde o início do mandato, inclusive em reuniões do G20 e em falas recentes do próprio presidente.
Por isso, a ordem interna é clara: nada de pressa. A recomendação dos assessores é deixar o tempo correr. A aposta é que outros países também adotem a mesma estratégia, esperando para ver se a proposta ganha corpo ou se esvazia sozinha. “Se não tiver G7, se não tiver Europa forte e nem parte relevante do BRICS, isso morre naturalmente”, comentou, em tom reservado, um auxiliar do governo.
O Planalto, vale dizer, não quer ser o primeiro a dizer “não”. Existe um cuidado grande em não criar um ruído diplomático desnecessário, especialmente num momento em que o cenário internacional já está bastante tensionado, com guerras, crises humanitárias e eleições importantes no radar, como a disputa nos próprios Estados Unidos. Ninguém quer entrar numa saia justa à toa.
Na visão brasileira, há também uma questão de princípio. Se o tal Conselho de Paz acabar funcionando como um “clube fechado”, alinhado apenas aos interesses de um grupo específico, o Brasil entende que não faz sentido ocupar uma cadeira à mesa. O país tenta se vender, hoje, como um ator equilibrado, que conversa com diferentes lados e aposta no diálogo institucional, e não em soluções improvisadas.
Nos corredores do Planalto, o sentimento é de espera calculada. Se a proposta de Trump “vingar”, como dizem alguns, o Brasil reavalia. Se não, a tendência é deixar o assunto esfriar, sem declarações duras, sem polêmica pública e sem desgaste. Às vezes, na diplomacia, não responder rápido também é uma resposta.