Há quase um ano internado no Hospital Brasília, desde que passou por uma delicada cirurgia abdominal, o médico pediatra Clóvis Roberto Puttini, de 72 anos, vive uma rotina que pouca gente imagina. São dias longos, noites parecidas e aquela sensação de tempo que parece não andar. Entre exames, medicações e visitas médicas, a vida acaba ficando resumida a um quarto, uma maca e algumas janelas fechadas.
Com o passar dos meses, essa permanência prolongada começou a cobrar seu preço. Clóvis, que sempre foi conhecido pela energia e pelo jeito atencioso com crianças e famílias, passou a demonstrar sinais claros de desânimo. A disposição já não era a mesma. Participar das atividades sugeridas pela equipe virou um esforço grande, quase pesado. As terapias, fundamentais para a recuperação, encontravam um paciente mais quieto, introspectivo e, em alguns momentos, visivelmente abatido.
Quem acompanha de perto sabe: não é só o corpo que adoece quando a internação se estende. A cabeça sente, o emocional pesa. E foi justamente observando esse cenário que os profissionais do Hospital Brasília resolveram tentar algo diferente. Fugir do protocolo, sair um pouco do roteiro tradicional e apostar em uma ação simples, mas cheia de significado.
A ideia era tirar Clóvis da rotina hospitalar, nem que fosse por algumas horas. O que antes era apenas o quarto e os corredores do hospital se transformou em algo inesperado: uma sessão de cinema. Sim, cinema mesmo. Com direito a telão, poltronas, família por perto e uma equipe médica acompanhando tudo de forma cuidadosa.
O filme escolhido não poderia ser outro: Tom e Jerry. Um clássico que atravessa gerações, leve, divertido e fácil de assistir. A proposta era clara e sem grandes pretensões: permitir que Clóvis mudasse de ambiente, respirasse outros ares e tivesse uma tarde diferente, cercado por quem ama e por quem cuida dele todos os dias.
E funcionou. Para o paciente, aquele momento representou muito mais do que assistir a um desenho animado. Foi uma chance de se desconectar, mesmo que temporariamente, da rotina pesada da internação. Por algumas horas, não havia exames, nem horários rígidos, nem a pressão constante da recuperação. Havia risadas, lembranças, conversa com a família e um certo brilho no olhar que andava sumido.
Em tempos em que tanto se fala sobre saúde mental e cuidado humanizado, ações como essa ganham ainda mais importância. Especialmente após anos marcados por pandemia, isolamento e hospitais sobrecarregados, iniciativas que olham para o lado humano do tratamento fazem toda diferença. Não é exagero dizer que, em muitos casos, esse tipo de cuidado também ajuda no processo de cura.
A sessão de cinema faz parte de um conjunto de ações de humanização adotadas pelo Hospital Brasília. A proposta é ampliar o conceito de cuidado, indo além dos protocolos médicos, dos números e dos prontuários. É entender que cada paciente carrega uma história, afetos, medos e desejos que precisam ser respeitados.
Segundo Julio Mott, diretor do Hospital Brasília, cuidar não se resume ao tratamento clínico. “Acreditamos que cuidar vai além do tratamento clínico. Colocar as pessoas no centro do cuidado também significa olhar para o emocional, para a história e para aquilo que dá sentido à vida de cada paciente”, afirmou.
No caso de Clóvis, o cinema não foi apenas uma distração. Foi um respiro. Um lembrete de que, mesmo em meio à doença e à espera pela recuperação completa, ainda há espaço para alegria, afeto e momentos simples que aquecem o coração. E, às vezes, é exatamente isso que o corpo e a alma precisam para seguir em frente.