Mesmo depois de ter sido atingida por um raio durante a concentração de apoiadores do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), em Brasília (DF), a cuiabana Natália Queiroz, de 29 anos, garante que não se arrepende nem por um segundo de ter participado do ato. Ainda visivelmente abalada, mas firme no discurso, ela diz que faria tudo de novo. “Valeu a pena”, resumiu, em conversa com a imprensa, dias após o susto que quase terminou em tragédia.
Natália estava acompanhada da amiga Ludmila Fernanda, de apenas 20 anos, quando o temporal caiu com força sobre a região da Praça do Cruzeiro, no Eixo Monumental. As duas haviam saído de Cuiabá (MT) na sexta-feira (23/1), depois de horas de estrada, com um objetivo claro: acompanhar a chegada de Nikolas Ferreira a Brasília, após a caminhada de seis dias iniciada em Paracatu, no Noroeste de Minas Gerais. O clima era de festa, cantos e bandeiras, mas mudou rápido demais.
Segundo Natália, a chuva apertou de uma hora pra outra. O céu escureceu, o vento aumentou e as pessoas começaram a se agrupar, tentando se proteger como dava. Foi nesse momento que tudo aconteceu. “Veio um clarão muito forte, daqueles que parecem rasgar o céu, e eu senti como se algo tivesse batido direto no meu peito”, contou. Logo em seguida, ela caiu para trás, enquanto uma multidão se desequilibrava ao redor. “Meu corpo tremia inteiro, eu não conseguia entender direito o que tava acontecendo”, disse.
Ao recobrar um pouco a noção, Natália olhou para o lado e viu Ludmila caída no chão, desacordada. A cena foi desesperadora. Pessoas gritavam, outras choravam, algumas tentavam ajudar como podiam. O socorro demorou poucos minutos, mas para quem estava ali, pareceu uma eternidade. Ludmila foi uma das primeiras a ser levada para o Hospital de Base do Distrito Federal (HBDF), onde precisou ser reanimada assim que deu entrada.
“Chegamos aqui em total desespero. Ela estava sem consciência, sem responder. Quando os médicos falaram que tinham conseguido reanimar, foi um alívio enorme”, relembrou Natália. Apesar do trauma, ela reforça que não se arrepende da viagem nem da participação no ato. “Graças a Deus, saímos com ela viva. Isso é o que importa. E eu não me arrependo nem um pouco de ter vindo de Mato Grosso apoiar o Nikolas”, afirmou, com a voz ainda embargada.
Ludmila, por sua vez, diz que se lembra de muito pouco. Segundo ela, tudo o que ficou na memória foi um barulho muito forte, seguido de uma luz branca intensa. Depois disso, apagou. A jovem passou por exames de sangue, eletrocardiograma e ficou em observação. Ela apresenta hematomas nas pernas e algumas marcas pelo corpo, provavelmente causadas pela queda e pelo empurra-empurra no momento do acidente.
De acordo com o Corpo de Bombeiros do Distrito Federal, ao menos 72 pessoas precisaram de atendimento médico no local. Destas, 42 estavam conscientes e orientadas, enquanto outras 30 foram encaminhadas ao HBDF e ao Hospital Regional da Asa Norte (HRAN). Oito vítimas apresentavam quadro considerado instável, com registros de queimaduras, principalmente nas mãos e no tórax, além de torções e episódios de hipertermia, agravados pelas condições climáticas.
A concentração marcava o fim da caminhada de Nikolas Ferreira até Brasília, um trajeto de cerca de 240 quilômetros, passando por cidades de Minas Gerais e Goiás. A mobilização reuniu centenas de apoiadores e contou com acompanhamento das forças de segurança, já que parte do percurso foi feita às margens de rodovias federais. O que era para ser apenas um ato político terminou marcado por medo, correria e muita apreensão — mas também por histórias de sobrevivência que dificilmente serão esquecidas.