Conheça o Nipah, vírus altamente letal que assusta a Ásia

Descoberto lá em 1999, quando pouca gente fora do meio científico dava bola pra esse tipo de coisa, um vírus voltou a chamar atenção agora em janeiro, depois de novos casos confirmados na Índia. O nome dele é Nipah, e apesar de não ser exatamente novidade, ele segue sendo uma dor de cabeça séria para autoridades de saúde no mundo todo. A Organização Mundial da Saúde (OMS), inclusive, coloca o Nipah na lista de patógenos prioritários, justamente por misturar três fatores bem perigosos: alta letalidade, capacidade de transmissão entre humanos e, até hoje, nenhuma vacina ou tratamento específico disponível.

Pra entender por que o Nipah assusta tanto, é preciso falar da forma como ele se espalha. Trata-se de um vírus zoonótico, ou seja, ele passa de animais para humanos. Os principais reservatórios são morcegos frugívoros, aqueles que se alimentam de frutas, principalmente do gênero Pteropus. Esses morcegos são comuns em várias regiões da Ásia e da África, o que amplia o risco. Além deles, porcos também podem atuar como intermediários, algo que já causou grandes prejuízos no passado.

A transmissão pode ocorrer de maneiras diferentes, e algumas parecem até banais. Em surtos anteriores, por exemplo, investigadores descobriram que pessoas adoeceram após consumir frutas ou sucos contaminados por saliva ou urina de morcegos infectados. Um caso clássico envolve o consumo de seiva de tâmara crua, bastante comum em algumas regiões. E não para por aí: há também transmissão direta entre humanos, principalmente entre familiares, cuidadores e profissionais de saúde que tiveram contato próximo com pacientes.

Os sintomas da infecção pelo Nipah variam bastante. Tem gente que não sente praticamente nada, mas em outros casos a doença evolui rápido e de forma grave. Os sinais iniciais lembram os de uma gripe mais forte: febre, dor de cabeça, dores no corpo, vômitos e dor de garganta. Só que, com o passar dos dias, o quadro pode piorar. Surgem tontura, sonolência excessiva, confusão mental e outros sintomas neurológicos que indicam encefalite aguda, uma inflamação séria no cérebro.

Problemas respiratórios também são comuns nos casos mais graves. Pneumonia atípica, dificuldade pra respirar e até síndrome do desconforto respiratório agudo já foram relatados em diversos surtos. O período de incubação geralmente vai de quatro a 14 dias, mas há registros de sintomas aparecendo mais de um mês depois, o que complica bastante o controle. A taxa de mortalidade assusta: estudos apontam que entre 40% e 75% dos infectados acabam morrendo, dependendo da estrutura de saúde disponível e da rapidez no diagnóstico.

E aí vem a parte mais frustrante: não existe, até agora, vacina nem remédio específico contra o Nipah. O tratamento é basicamente de suporte, ou seja, os médicos tentam aliviar os sintomas e tratar as complicações, especialmente as neurológicas e respiratórias. É por isso que a OMS colocou o vírus ao lado de nomes bem conhecidos, como Ebola, Zika e o próprio coronavírus da Covid-19, na lista de prioridades para pesquisa.

O histórico de surtos ajuda a explicar o medo atual. O primeiro grande episódio aconteceu na Malásia, no fim dos anos 90, deixando mais de 100 mortos e levando ao abate de cerca de um milhão de porcos. Desde 2001, Bangladesh enfrenta surtos quase todos os anos, acumulando mais de 100 mortes. A Índia também já lidou com o problema várias vezes, especialmente no estado de Kerala, onde medidas duras como testagem em massa e isolamento rigoroso conseguiram conter a doença.

Agora, o assunto voltou aos holofotes após novos casos na Índia, desta vez em Bengala Ocidental. Cerca de 110 pessoas foram colocadas em quarentena depois que dois profissionais de saúde testaram positivo no início de janeiro, após contato com pacientes infectados. Não é pânico, mas é alerta. O Nipah pode até ser raro, mas quando aparece, o estrago costuma ser grande.



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