Relógio do Juízo Final atinge marca histórica e assusta o mundo

O chamado Relógio do Juízo Final, também conhecido como Relógio do Apocalipse, voltou a assustar o mundo. Em sua mais recente atualização, os cientistas responsáveis pelo indicador simbólico colocaram os ponteiros a 85 segundos da meia-noite, o ponto mais próximo do fim da humanidade desde a criação do relógio, há quase oito décadas. Nunca estivemos tão perto do colapso total, ao menos segundo essa métrica criada para alertar — e provocar — líderes globais e a sociedade.

Para se ter uma ideia, no ano passado o relógio marcava 89 segundos. Agora, avançou quatro segundos em direção ao fim. Pode parecer pouco, mas, dentro da lógica do projeto, cada segundo representa um agravamento real da situação mundial. Não é exagero dizer que o clima entre os cientistas é de extrema preocupação, e até um certo cansaço. Afinal, os alertas se repetem, mas as ações concretas seguem travadas.

O relógio é administrado pelo Boletim de Cientistas Atômicos, um grupo formado por especialistas em segurança, ciência e relações internacionais, incluindo 13 vencedores do Prêmio Nobel. Eles avaliam riscos globais como armas nucleares, mudanças climáticas, conflitos geopolíticos e, mais recentemente, até desinformação e tecnologias fora de controle. Ou seja, não é só sobre bombas, mas sobre decisões humanas.

Segundo o Conselho de Ciência e Segurança do Boletim, três fatores pesaram mais nesta atualização: o aumento da ameaça nuclear, o avanço das mudanças climáticas e a escalada da agressividade entre as grandes potências. Em pleno 2026, tratados de não proliferação seguem parados, arsenais estão sendo modernizados e o diálogo internacional parece cada vez mais frágil. O mundo anda de pavio curto.

A presidente do Boletim, Alexandra Bell, foi direta ao apontar responsabilidades. Para ela, a decadência da cooperação global tem nome e sobrenome. Bell citou decisões do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, como um dos principais elementos que empurraram o relógio para mais perto da meia-noite.

Segundo ela, Trump vem desmontando décadas de acordos de controle de armas, enfraquecendo mecanismos que garantiam um mínimo de estabilidade entre Estados Unidos e Rússia — os dois maiores arsenais nucleares do planeta. Além disso, políticas ambientais foram colocadas de lado, justamente num momento em que eventos extremos, como enchentes, secas e ondas de calor, se tornam cada vez mais comuns. Basta ligar o noticiário para ver.

Daniel Holz, presidente do Comitê de Segurança e Ciência do Boletim, destacou que os principais países do mundo adotaram uma postura mais agressiva, hostil e nacionalista no último ano. Para ele, a história mostra que governos que deixam de prestar contas à própria população acabam gerando conflito, desigualdade e miséria. E isso, cedo ou tarde, respinga em todo mundo.

Durante a apresentação, quem também chamou atenção foi a jornalista filipina Maria Ressa, vencedora do Nobel da Paz em 2021. Ela trouxe outro ponto crucial: a crise do jornalismo. Segundo Ressa, sem informação confiável e sem imprensa forte, a democracia enfraquece — e o caos encontra espaço.

Ela defendeu que plataformas digitais sejam redesenhadas com foco em direitos humanos, e não apenas em curtidas e engajamento. Além disso, pediu que o jornalismo seja tratado como infraestrutura essencial, assim como energia ou saúde. Uma fala que fez muita gente balançar a cabeça em concordância.

Criado em 1947, em plena Guerra Fria, o Relógio do Juízo Final nunca pretendeu prever o futuro com exatidão. Ele serve como alerta. Desde 2007, passou a incluir oficialmente a crise climática em seus cálculos, reconhecendo que o fim da humanidade pode vir não só de uma guerra, mas também da própria degradação do planeta.

O problema é que, ano após ano, os ponteiros seguem avançando. E o mundo, ao que tudo indica, segue apertando o botão errado.



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