Em 2024, Lula inaugurou fábrica de empresa ligada a Vorcaro e gesto volta a repercutir

Antes mesmo do encontro reservado entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o banqueiro Daniel Vorcaro, ocorrido fora da agenda oficial no Palácio do Planalto, em 4 de dezembro de 2024, alguns fatos já ajudavam a montar esse quebra-cabeça político-empresarial que hoje chama atenção em Brasília. Não foi algo que surgiu do nada. Meses antes, em abril daquele ano, Lula esteve em Minas Gerais para participar da inauguração da fábrica de insulina da farmacêutica Biomm, em Nova Lima, evento que passou quase despercebido do grande público na época.

A Biomm, vale lembrar, tem como principal acionista o Banco Master, que controla 25,86% do capital da empresa por meio do Fundo Cartago. Mesmo sendo o maior investidor individual da farmacêutica, Daniel Vorcaro não apareceu na cerimônia. Foi uma ausência notada por alguns convidados, mas que acabou não rendendo grandes manchetes. No palco, Lula dividiu espaço com outros sócios da Biomm, entre eles Walfrido dos Mares Guia, dono de 5,53% da companhia, e o empresário Lucas Kallas, da Cedro Participações, que possui cerca de 8% das ações.

Kallas, aliás, é um personagem que já frequentou os noticiários por motivos menos festivos. Empresário ligado ao setor de mineração, ele teve o nome citado em investigações da Polícia Federal, como as operações Parcours e Rejeito. Sempre que questionado, Kallas nega qualquer irregularidade e afirma colaborar com as autoridades. Ainda assim, o histórico pesa. Um detalhe curioso é que tanto ele quanto Vorcaro aparecem, cada um à sua maneira, em inquéritos que estão sob a relatoria do ministro Dias Toffoli, no Supremo Tribunal Federal.

Toffoli concentra em seu gabinete dois casos sensíveis: o do Banco Master, vinculado à Operação Compliance Zero, e o inquérito da Operação Rejeito, no qual Lucas Kallas surge como citado em documentos e depoimentos. Essa coincidência de caminhos jurídicos chama atenção de quem acompanha os bastidores do poder em Brasília, principalmente num momento em que as relações entre governo, Judiciário e grandes empresários voltam a ser tema de debate público.

A relação de Lula com Lucas Kallas, no entanto, não ficou restrita à inauguração da fábrica da Biomm. Em fevereiro de 2025, o presidente voltou a mencionar o empresário de forma positiva durante a assinatura do contrato de concessão do terminal ITG-02, no Porto de Itaguaí, no Rio de Janeiro. Na ocasião, o Grupo Cedro arrematou a área por apenas R$ 1 milhão, assumindo o compromisso de investir algo em torno de R$ 3 bilhões ao longo de três anos. O discurso de Lula foi elogioso, destacando a capacidade de investimento e a geração de empregos, num tom típico de eventos oficiais desse tipo.

Enquanto isso, nos bastidores, o nome de Kallas continuava rondando investigações. Em setembro de 2025, ele voltou a aparecer citado em novos documentos da Operação Rejeito, que apura um esquema complexo envolvendo crimes ambientais, corrupção e lavagem de dinheiro. Segundo estimativas da própria investigação, o lucro obtido com o esquema pode chegar a pelo menos R$ 1,5 bilhão. O caso acabou chegando ao STF após a menção ao senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG), o que levou o processo diretamente para a relatoria de Dias Toffoli.

Esse emaranhado de encontros, elogios públicos, ausências estratégicas e investigações em curso ajuda a entender melhor o contexto do encontro reservado entre Lula e Daniel Vorcaro no fim de 2024. Nada ali parece isolado. São peças de um tabuleiro maior, em que política, grandes negócios e Justiça se cruzam o tempo todo. E, como costuma acontecer no Brasil, muitas dessas conexões só ganham real visibilidade meses, ou até anos, depois, quando os fatos começam a se alinhar e fazer mais sentido para quem observa de fora.



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