Após ser cobrado a “vestir a camisa”, Haddad não perdoa e ironiza Gleisi

A ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann (PT-PR), resolveu colocar o assunto em praça pública e defendeu, sem rodeios, que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT-SP), entre de vez na disputa pelo governo de São Paulo. Para ela, o momento exige que os principais nomes do PT deixem a zona de conforto e assumam o protagonismo nas eleições que se aproximam. A fala, no entanto, acabou ganhando um tempero extra no dia seguinte, quando Haddad respondeu com ironia, deixando claro que não está nada animado com a ideia.

Na quinta-feira (29), ao chegar ao Ministério da Fazenda, Haddad foi questionado sobre o apoio recebido de Gleisi. Em vez de um agradecimento protocolar ou de uma resposta política clássica, preferiu o sarcasmo. “Estou comemorando a Gleisi ter me elogiado”, disse, com um meio sorriso, fugindo de qualquer confirmação sobre candidatura. A cena chamou atenção nos bastidores, principalmente porque os dois já tiveram divergências internas no governo, inclusive sobre rumos da política econômica.

Um dia antes, Gleisi havia sido direta ao dizer que o PT precisa reagir ao avanço da extrema-direita nos estados, e São Paulo, claro, entra nessa conta como prioridade absoluta. Maior colégio eleitoral do país, o estado é visto como peça-chave tanto para o projeto nacional do partido quanto para a tentativa de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo ela, Haddad teria papel central nessa engrenagem, embora reconheça que a decisão final passa, inevitavelmente, por uma conversa com Lula.

“Todos têm que entrar em campo, todos têm que vestir a camisa e fazer aquilo que melhor sabem fazer na disputa. Eu defendo que todos os quadros nossos, inclusive o ministro (Fernando Haddad), sejam candidatos nesse processo eleitoral. Nós precisamos disso”, afirmou Gleisi a jornalistas, num discurso que soou mais como cobrança do que simples sugestão.

Apesar da pressão pública e das articulações internas, Haddad tem repetido que não pretende disputar eleições agora. Ele diz preferir ajudar nos bastidores, colaborando com o desenho do programa e da estratégia da campanha presidencial. Dentro do PT, essa posição causa desconforto. Há o receio real de que o partido fique sem um palanque forte em São Paulo, algo que já custou caro em eleições anteriores.

Em entrevista ao jornal O Globo no mês passado, Haddad foi claro: “Eu tenho a intenção de colaborar com a campanha do presidente Lula, e disse isso a ele, que eu não pretendo ser candidato em 2026”. A fala reforçou a ideia de que sua prioridade segue sendo a Fazenda e a agenda econômica, num momento em que o governo tenta mostrar estabilidade fiscal e responsabilidade, temas sensíveis tanto no mercado quanto entre eleitores.

Gleisi não está sozinha nessa cobrança. O ministro da Educação, Camilo Santana (PT), também já declarou que Haddad não pode se dar ao “luxo” de decidir tudo de forma individual. Para ele, a estratégia do partido deve estar acima de vontades pessoais, ainda mais num cenário político tão polarizado.

Ao falar de si mesma, Gleisi usou o próprio exemplo. Contou que, inicialmente, pretendia disputar a reeleição como deputada federal, mas acabou mudando de planos após conversa com Lula. Aceitou o desafio de concorrer ao Senado pelo Paraná, entendendo que a decisão fazia parte de um projeto maior. “Eu aceitei com muita alegria”, disse, lembrando que já foi senadora e acredita numa campanha competitiva no estado.

Vale lembrar que Haddad conhece bem essa disputa. Em 2022, foi candidato ao governo paulista, chegou ao segundo turno e teve o melhor desempenho de um petista na história recente da eleição estadual. Mesmo assim, acabou derrotado por Tarcísio de Freitas (Republicanos), que venceu com pouco mais de 55% dos votos válidos. Esse histórico pesa, tanto a favor quanto contra, e ajuda a explicar por que a resistência de Haddad hoje aumenta as incertezas do PT sobre qual caminho seguir em São Paulo.



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