Aos 70 anos, falece Frei Sérgio Görgen, fundador do MST e ex-deputado do PT

Morreu nesta terça-feira (3), aos 70 anos, o frei Sérgio Antônio Görgen, figura histórica da luta pela reforma agrária no Brasil e nome conhecido nos movimentos sociais do campo. Ele faleceu em casa, no Assentamento Conquista da Fronteira, em Hulha Negra, na Região da Campanha do Rio Grande do Sul, onde vivia há anos, próximo das famílias agricultoras com quem sempre escolheu caminhar.

Religioso franciscano, militante e também homem da política institucional, frei Sérgio foi um dos fundadores do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), organização que marcou profundamente a história recente do país. Em um momento em que o debate sobre a função social da terra volta a ganhar espaço no noticiário, sua morte repercute como o fim de um ciclo importante da militância rural no Brasil.

Além da atuação no MST, Görgen teve passagem pelo parlamento gaúcho. Foi deputado estadual pelo Partido dos Trabalhadores (PT) entre 2002 e 2006, período em que defendeu pautas ligadas à agricultura familiar, à soberania alimentar e aos direitos das populações do campo. Não era um político tradicional, desses de gabinete fechado. Preferia a estrada de chão, as reuniões longas em assentamentos e a conversa direta, muitas vezes dura, mas franca.

Também foi dirigente do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), reforçando uma trajetória marcada pela defesa de um modelo de desenvolvimento rural menos concentrador e mais humano. Para aliados, frei Sérgio tinha uma capacidade rara de transitar entre o discurso religioso, a análise política e a prática concreta. Para críticos, era uma figura incômoda, que não suavizava posições nem fazia concessões fáceis. Ele sabia disso, e parecia não se importar muito.

O velório ocorre na tarde desta terça-feira, em um assentamento da região. Às 19 horas, está prevista a celebração de uma missa no Salão Paroquial da cidade de Candiota. Já o sepultamento acontece na quarta-feira (4), às 16 horas, no cemitério dos freis, no Convento São Boaventura, em Imigrante, no Vale do Taquari. As informações foram divulgadas pelo G1.

Nos últimos anos, mesmo com a saúde mais frágil, frei Sérgio seguia participando de debates, escrevendo textos e opinando sobre o rumo da política agrária no país. Em meio às discussões recentes sobre inflação dos alimentos, mudanças climáticas e o papel do agronegócio, sua voz era frequentemente lembrada por defender a agricultura familiar como parte da solução, não do problema. Nem todos concordavam, claro. Mas poucos negavam sua coerência.

Há quem diga que ele representava uma geração que já não existe mais. Outros preferem afirmar que suas ideias seguem vivas, especialmente entre jovens militantes que hoje ocupam acampamentos e universidades. A verdade talvez esteja no meio disso tudo. Frei Sérgio não era unanimidade, nunca foi. E talvez exatamente por isso tenha sido tão relevante.

A morte do religioso ocorre em um momento simbólico, quando o país volta a discutir reforma agrária, democracia e justiça social, temas que atravessaram toda a sua vida. Ficam os escritos, as lembranças, as discordâncias e, principalmente, a marca deixada em milhares de famílias que encontraram na terra um novo começo. Mesmo com falhas, excessos e contradições, sua trajetória dificilmente será esquecida.



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