A família de um dos adolescentes que chegou a ter o nome citado, mas que não foi indiciado, no caso da morte do cão comunitário Orelha, em Florianópolis (SC), resolveu se pronunciar publicamente nesta quarta-feira (4). A manifestação veio logo após a Polícia Civil concluir o inquérito, colocando um ponto final em semanas de especulações, julgamentos nas redes e um desgaste emocional que, segundo eles, foi pesado demais para qualquer família comum.
Na nota enviada ao site Pleno.News, os pais foram diretos ao afirmar aquilo que, segundo eles, sempre souberam: o filho não teve participação alguma nas agressões contra o animal, nem envolvimento com atos de vandalismo ou qualquer outro crime investigado. A conclusão oficial, que resultou na não responsabilização do adolescente, foi recebida como um alívio, mas também com um sentimento agridoce.
“Não foi surpresa, mas foi um respiro”, resumiu um trecho do comunicado, que deixa claro que a verdade jurídica nem sempre chega no mesmo tempo que a condenação pública. Durante o período mais intenso da investigação, a família relata ter vivido dias de medo real, ansiedade constante e pressão psicológica que ultrapassaram o razoável. Não foram poucas as mensagens ofensivas, ameaças veladas e boatos espalhados como se fossem fatos.
O caso do cão Orelha, que mobilizou moradores e ganhou grande repercussão nas redes sociais — num momento em que o debate sobre maus-tratos a animais está cada vez mais sensível no Brasil — acabou criando um ambiente tóxico. Segundo a família, o que deveria ser uma busca por justiça se transformou, em muitos momentos, num verdadeiro tribunal digital.
Eles reconhecem que a indignação coletiva diante da morte de um animal comunitário é legítima. Afinal, o Brasil inteiro acompanha, quase semanalmente, notícias de violência contra animais que chocam e revoltam. O problema, apontam, começa quando essa indignação ultrapassa o bom senso e passa a se basear em suposições, acusações sem prova e ataques pessoais.
“O pânico digital virou regra”, afirmam. Para os familiares, factóides, julgamentos sumários e o uso oportunista de tragédias não apenas distorcem a verdade, como destroem reputações, adoecem pessoas e colocam em risco valores básicos de convivência democrática. Em outras palavras, a emoção passou por cima do devido processo legal.
Durante todo esse período, a família diz que optou pelo silêncio. Não por concordar com as acusações, mas por entender que qualquer reação pública poderia alimentar ainda mais o ódio e os confrontos. Sustentados pelo apoio familiar, pela fé e por valores que dizem carregar há anos, resistiram à tentação de responder na mesma moeda.
Agora, com o inquérito encerrado, o foco é outro. Eles afirmam que pretendem buscar reparação judicial pelos danos sofridos, inclusive financeiros, já que houve relatos de boicote a atividades profissionais da família. A medida, segundo o texto, não tem caráter de vingança, mas de cidadania. Um recado claro de que crimes digitais, difamações e incitação à violência não podem ser tratados como algo normal.
A nota também faz uma crítica direta a parte da imprensa, da política e de organizações sociais, que, segundo os familiares, contribuíram para reforçar julgamentos precipitados. Nem tudo veio de perfis anônimos, destacam.
Por fim, a família diz querer transformar a dor em aprendizado coletivo. A ideia é contribuir para um debate mais sério sobre violência digital, linchamentos virtuais e os impactos reais que isso causa na vida de pessoas inocentes. Se algo positivo puder surgir de toda essa história, que seja a reflexão.
A verdade apareceu, dizem eles. E é com ela — e não com ódio — que escolheram seguir em frente.