Na cadeia, Bolsonaro fez proposta ousada para Tarcísio, mas ouviu um “não”

No fim de setembro de 2025, longe dos holofotes e em clima de total reserva, o ex-presidente Jair Bolsonaro chamou o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, para uma conversa direta em Brasília. Na época, Bolsonaro ainda cumpria prisão domiciliar, o que por si só já dava um peso diferente ao encontro. Nada de assessores entrando e saindo, nada de fotos. Apenas política, poder e futuro.

Segundo relatos feitos depois pelo próprio Tarcísio a pessoas próximas, Bolsonaro não rodeou muito. Foi direto ao ponto, como costuma ser: perguntou se o governador tinha interesse em disputar a Presidência da República em 2026. A conversa também contou com a presença do senador Flávio Bolsonaro, que acompanhou tudo de perto e ouviu atentamente cada resposta.

A resposta de Tarcísio, porém, não foi a que muitos esperavam. Ele disse que, naquele momento, sua prioridade era outra: buscar a reeleição ao governo de São Paulo. O governador justificou a decisão citando os projetos em andamento no estado, especialmente nas áreas de infraestrutura e concessões, além de mencionar o impacto que uma campanha presidencial teria na rotina da sua família. Para ele, segundo esses relatos, ainda não era a hora de dar um salto tão arriscado.

Nos bastidores, o raciocínio era bem pragmático. Tarcísio avaliava que abrir mão de uma reeleição considerada “quase certa” no maior colégio eleitoral do país poderia ser um erro estratégico difícil de corrigir. Enfrentar Lula em uma disputa nacional, ainda mais com a máquina federal funcionando a pleno vapor, era visto como uma batalha dura demais. Havia, claro, o apoio de setores do mercado financeiro e de empresários, mas, na visão dele, isso não garantiria votos suficientes Brasil afora.

Esse medo de uma derrota nacional, somado à segurança de permanecer forte em São Paulo, acabou afastando o governador de vez da corrida presidencial. Dois meses depois dessa conversa inicial, veio a confirmação do que já se desenhava nos corredores do bolsonarismo: Flávio Bolsonaro foi anunciado como o nome da família para liderar a disputa pelo Palácio do Planalto em 2026.

O cenário político, vale lembrar, estava longe de ser simples. Lula mantinha índices razoáveis de aprovação, apesar das críticas constantes, enquanto a direita ainda buscava uma estratégia unificada. Eventos internacionais, como as eleições nos Estados Unidos e a tensão no mercado global, também influenciavam o humor dos investidores e, indiretamente, o debate eleitoral no Brasil.

Já no dia 29 de janeiro, Tarcísio voltou a se reunir com Bolsonaro, dessa vez na chamada “Papudinha”, onde o ex-presidente estava preso. O clima era diferente. Com a candidatura de Flávio praticamente consolidada, a conversa girou menos em torno do Planalto e mais sobre São Paulo. O foco passou a ser a montagem da chapa estadual.

Nesse encontro, o governador sugeriu que a direita apostasse em um nome de centro para a disputa ao Senado em São Paulo, alguém capaz de dialogar com eleitores mais moderados e ampliar o alcance da chapa. A ideia era clara: evitar radicalizações excessivas e garantir uma vitória confortável no estado, que segue sendo peça-chave em qualquer projeto nacional.

No fim das contas, a decisão de Tarcísio revelou mais cautela do que ambição. Enquanto muitos veem a Presidência como um sonho imediato, ele preferiu o caminho seguro, apostando no controle do próprio território antes de alçar voos mais altos. Se essa estratégia vai dar certo a longo prazo, só as urnas — e o humor imprevisível do eleitor brasileiro — dirão.



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