O senador Flávio Bolsonaro resolveu não deixar barato. Assim que saiu o resultado oficial do Carnaval do Rio, ele correu para as redes sociais e comemorou, sem rodeios, o rebaixamento da Acadêmicos de Niterói. Foi direto ao ponto, no estilo que seus seguidores já conhecem bem. No Instagram, escreveu que “Lula é sempre uma ideia ruim, seja para governar o País, seja para um samba-enredo”. A frase repercutiu rápido e, claro, incendiou ainda mais o debate político que já vinha fervendo desde antes do desfile.
O Carnaval de 2026 terminou oficialmente nesta quarta-feira, 18, com a tradicional apuração na Marquês de Sapucaí. Mas, dessa vez, o resultado não ficou restrito aos amantes do samba. Ele ultrapassou a avenida e caiu direto na arena política nacional. A Acadêmicos de Niterói, que era estreante no Grupo Especial, acabou ficando na última colocação. Com isso, retorna à Série Ouro em 2027. Uma queda dura, principalmente para quem vinha de uma ascensão considerada meteórica.
Fundada em 2018, a escola cresceu rápido. Em poucos anos, saiu das divisões de acesso e conquistou uma vaga na elite do samba carioca em 2025. Muita gente via a agremiação como símbolo de renovação, de fôlego novo na avenida. Só que o sonho durou pouco. A avaliação dos jurados neste ano não foi generosa. Quesitos como harmonia, evolução e conjunto acabaram pesando contra. E no fim das contas, a conta não fechou.
O enredo escolhido também ajudou a esquentar os ânimos. Com o título “Do Alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, a escola decidiu homenagear a trajetória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A proposta dividiu opiniões desde o anúncio. Teve quem aplaudisse a coragem, teve quem criticasse a politização do Carnaval. E não foi pouca gente.
Antes mesmo da escola pisar na Sapucaí, o tema virou alvo de questionamentos no Tribunal Superior Eleitoral. Houve discussão sobre possível promoção antecipada de imagem, uso indevido de recursos, essas coisas que, em ano pré-eleitoral, ganham ainda mais peso. No fim, o desfile aconteceu normalmente. Mas o clima já estava carregado.
Na avenida, a escola apostou em alegorias grandiosas, cores fortes e referências à origem humilde do presidente. Teve representação do período sindical, do Nordeste, das greves históricas. Parte do público vibrou. Outra parte vaiou. E no meio disso tudo, o desfile seguiu, bonito em alguns momentos, confuso em outros — pelo menos na avaliação de quem estava assistindo pela TV e comentando em tempo real nas redes sociais.
Quando saiu o resultado, o rebaixamento foi um prato cheio para adversários políticos. Flávio Bolsonaro não perdeu tempo. Associou o desempenho da escola ao que ele chamou de “futuro político do PT”. Foi uma cutucada direta. E previsível também. A polarização que marca o Brasil nos últimos anos parece não dar trégua nem no samba.
É curioso como o Carnaval, que muita gente ainda tenta vender como espaço neutro, vira palco de disputas simbólicas. Já vimos isso antes. Em 2018, 2020, 2024… sempre há enredos que dialogam com política, religião, questões sociais. Faz parte da história das escolas. Mas, em tempos de redes sociais, tudo ganha proporção maior. Um comentário vira tendência em minutos.
Agora, a Acadêmicos de Niterói tenta juntar os cacos. A diretoria já fala em reestruturação, ajustes técnicos e planejamento para voltar mais forte. Não é o fim do mundo. Outras escolas já caíram e depois retornaram ao Grupo Especial com desfiles históricos. O samba é cíclico, assim como a política.
No fim das contas, fica a pergunta que muita gente anda fazendo: o rebaixamento foi puramente técnico ou o peso da polêmica influenciou, mesmo que indiretamente? Difícil afirmar. O julgamento oficial se baseia em critérios objetivos, mas o ambiente ao redor nunca é totalmente neutro.
Entre notas, discursos e postagens inflamadas, o fato é que o Carnaval de 2026 não será lembrado apenas pelas fantasias ou pelo brilho das alegorias. Ele entrou, de vez, para a crônica política do país. E pelo jeito, ainda vai render assunto por um bom tempo.