Em entrevista concedida ao portal indiano India Today nesta sexta-feira (19), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a falar sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro e não economizou palavras. A pergunta veio direta, daquelas que já chegam com tensão embutida: o caso de Bolsonaro poderia atrapalhar a relação do Brasil com Donald Trump?
Lula foi taxativo. Disse que, na visão dele, a questão está encerrada. Segundo o presidente, Bolsonaro foi condenado a 27 anos e 3 meses de prisão e deve permanecer detido por um bom tempo. Ele citou, inclusive, a tentativa de golpe e um suposto plano que envolveria atentados contra ele próprio, contra o vice-presidente e contra o chefe da Justiça Eleitoral. Foi uma fala forte, pesada, daquelas que não deixam margem pra muita interpretação.
“O Brasil tem Constituição, tem Suprema Corte, e a Suprema Corte precisa cumprir a Constituição”, afirmou Lula, em tom firme. Ele ressaltou que a condenação teria ocorrido com base em provas e que o devido processo legal foi respeitado. Ou seja, na narrativa do presidente, não há perseguição, mas sim aplicação da lei. Ponto final.
Lula também deixou claro que não está preocupado com a relação pessoal entre Trump e Bolsonaro. Segundo ele, o foco agora é outro: manter uma relação respeitosa, democrática e histórica entre Brasil e Estados Unidos. Ele lembrou que os dois países mantêm laços diplomáticos há mais de 200 anos — algo que, segundo o presidente, vai muito além de afinidades ideológicas momentâneas. E nisso ele até tem razão, porque governos passam, mas as relações de Estado ficam.
Aliás, vale lembrar que o cenário internacional anda meio turbulento. Com guerras em curso, tensões comerciais e disputas tecnológicas, qualquer ruído diplomático ganha proporções maiores do que antigamente. Talvez por isso Lula tenha feito questão de enfatizar que está “lutando” por uma relação equilibrada com os EUA.
Mas a entrevista não ficou só no tema Bolsonaro. Lula também foi questionado sobre inteligência artificial — assunto que, convenhamos, está na boca do povo. De deepfakes a golpes virtuais, passando por uso indevido de imagem, o debate cresce a cada dia. E o presidente concordou com o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, sobre a necessidade de uma regulamentação rígida.
Segundo Lula, essa regulação deveria ser construída dentro de uma instituição multilateral do porte das Organização das Nações Unidas. Ele argumentou que a inteligência artificial precisa de regras claras para proteger principalmente crianças, adolescentes e mulheres — grupos que, segundo ele, acabam sendo os mais vulneráveis em ambientes digitais desregulados.
Ele fez uma crítica direta às grandes plataformas, ainda que sem citar nomes. Disse que dois ou três donos de empresas não querem regulação, o que não chega a ser surpresa. Afinal, quando se fala em controle e regras, geralmente o mercado reage. Mas Lula ponderou que deixar a tecnologia solta, sem limites, pode trazer consequências graves no futuro.
“Pode ser lucrativo para uma ou duas pessoas, mas para a humanidade não será bom”, afirmou. A frase resume bem a posição dele. Existe uma preocupação clara de que a IA, apesar de extraordinária, como ele mesmo definiu, possa sair do controle se não houver coordenação global.
No fim das contas, a entrevista misturou política interna, diplomacia internacional e tecnologia — três temas que hoje andam de mãos dadas. E goste-se ou não das posições de Lula, é fato que o debate sobre democracia, justiça e inteligência artificial está cada vez mais urgente. O mundo mudou rápido demais nos últimos anos. Talvez até rápido demais pra gente acompanhar direito.