O senador Flávio Bolsonaro (PL), que já se movimenta como pré-candidato à Presidência da República, acabou se envolvendo em uma polêmica que ninguém esperava — muito menos os próprios aliados. Em plena pré-campanha, quando cada palavra é calculada quase como lance de xadrez, ele resolveu apostar em algo que caiu como uma bomba entre parte do eleitorado conservador: a tal da linguagem neutra.
Tudo começou em uma publicação no X, antigo Twitter, onde Flávio compartilhou uma foto ao lado do pai, Jair Bolsonaro. A imagem era estratégica, claro. Passava a ideia de união, continuidade e força política. Na legenda, o senador falou sobre a importância de vencer Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições deste ano. Até aí, nada fora do script. O problema veio na escolha das palavras.
“Tá todo mundo querendo vencer a discussão. Mas o que precisamos é ganhar a eleição! Gostaria de contar com todas, todos, todes, todys e todXs!”, escreveu ele.
Pronto. Bastou o “todes” para o clima esquentar.
A tentativa, ao que tudo indica, era “hitar”, como se diz na internet quando alguém quer viralizar ou chamar atenção. Só que o efeito foi o oposto. Em vez de aplausos, vieram críticas — e muitas. Principalmente de eleitores da direita, que tradicionalmente rejeitam o uso de pronome neutro e associam a prática a pautas progressistas.
Nos comentários, o tom foi de frustração. Teve seguidor dizendo que ele “mais do que ninguém deveria banir essa linguagem”. Outro afirmou que “não dá pra forçar tanto assim”. Um terceiro questionou, com ironia, se ele realmente queria ser o novo líder da direita conservadora usando esse tipo de expressão. E teve ainda quem declarasse que, depois dessa, o senador “caiu demais no conceito”.
É curioso observar como, em tempos de redes sociais, um detalhe aparentemente pequeno pode ganhar proporções gigantescas. Em ano eleitoral, qualquer deslize vira munição. E não estamos falando de adversários políticos explorando o caso — mas de críticas vindas da própria base.
Nos bastidores da política, a avaliação é que o episódio revela o quanto o ambiente está sensível. A direita brasileira, especialmente a ala mais conservadora, tem travado debates constantes contra a linguagem neutra em escolas, universidades e órgãos públicos. Para muitos desses eleitores, o uso de “todes” não é apenas uma palavra diferente, mas um símbolo de uma agenda ideológica que eles combatem.
Talvez Flávio tenha feito a postagem em tom de brincadeira, talvez tenha sido uma estratégia de engajamento digital. Ou pode ter sido apenas um descuido. A verdade é que, na política, percepção vale quase tanto quanto intenção. E a percepção de parte do público foi negativa.
Enquanto isso, o debate segue fervendo nas redes. O Brasil vive um momento político intenso, polarizado, onde cada frase vira manchete e cada print circula em grupos de WhatsApp em questão de segundos. Não existe mais publicação despretensiosa.
Agora fica a pergunta no ar: o senador vai se pronunciar para explicar o uso do termo? Vai dizer que foi ironia, estratégia ou apenas uma forma de incluir todo mundo? Ou vai deixar a poeira baixar e seguir em frente?
No fim das contas, o que parecia uma tentativa de ampliar alcance acabou gerando ruído dentro da própria bolha. E, em pré-campanha, perder moral com a base pode custar caro. Política é detalhe, é timing, é sintonia com quem te apoia. Às vezes, uma única palavra muda tudo.
Tá todo mundo querendo vencer a discussão.
— Flávio Bolsonaro (@FlavioBolsonaro) February 23, 2026
Mas o que precisamos é ganhar a eleição!
Gostaria de contar com todas, todos, todes , todys e todXs! pic.twitter.com/mFvWxIYbWA