O Impacto do Fechamento do Estreito de Ormuz: Quem Realmente Paga o Preço?
Nas últimas 48 horas, muitos analistas, jornalistas e o mercado financeiro têm se perguntado o que realmente acontece com o Irã após os recentes ataques. Quais instalações foram afetadas? Quanto tempo o regime iraniano levará para se reorganizar? Embora essas perguntas sejam válidas, eu me pergunto: quem realmente perde mais com o fechamento do Estreito de Ormuz? A resposta pode surpreender: não está em Teerã, mas sim em Pequim.
Um fechamento prolongado do Estreito de Ormuz, segundo Bob McNally, ex-assessor de energia da Casa Branca, poderia garantir uma recessão global. Para entender a profundidade desse impacto, é crucial perceber que o Estreito de Ormuz é, na verdade, o corredor energético mais vital do mundo. Aproximadamente 20 milhões de barris de petróleo passam por ali diariamente, representando cerca de 20% da demanda global.
O Papel da China
É interessante notar que os principais afetados não são a Europa ou os Estados Unidos, mas sim a China, que depende desse corredor para cerca da metade de todo o petróleo bruto que importa. Quando os EUA e Israel bombardearam o Irã e a Guarda Revolucionária Iraniana anunciou o fechamento do estreito, o alvo não eram apenas as instalações militares, mas sim a vital energia que alimenta a segunda maior economia do mundo.
A Guerra Comercial que Começou em 2018
Para entender o que ocorreu no último fim de semana, é essencial retroceder até 2018, quando o governo Trump iniciou uma das maiores disputas comerciais entre as duas maiores economias do mundo. A justificativa era um déficit comercial dos EUA com a China, que atingiu US$ 419 bilhões naquele ano. O governo americano impôs tarifas, que aumentaram de 3% para até 145% em 2025.
Embora o déficit tenha diminuído para US$ 308 bilhões em 2025, a China redirecionou suas exportações para outros mercados e alcançou um superávit global recorde de US$ 1,19 trilhão. Entretanto, a guerra teve suas consequências: o crescimento do PIB chinês desacelerou de 6,6% em 2018 para uma projeção de apenas 4,2% em 2026, e o desemprego entre jovens chegou a alarmantes 21,3% em 2023.
A Vulnerabilidade Energética da China
Uma estatística que revela a vulnerabilidade da China é que o país importa cerca de 10,27 milhões de barris de petróleo por dia, com 40% a 50% deste total vindo do Golfo Pérsico. Isso significa que fechar o Estreito de Ormuz seria como cortar o combustível das fábricas chinesas, um setor que representa quase 37% do PIB do país, muito mais do que os 17% dos EUA.
O Custo do Petróleo para a Economia Chinesa
Quando o preço do petróleo sobe, a China não está apenas pagando mais pela gasolina; ela enfrenta um aumento nos custos de produção de quase tudo. O petróleo é a base de muitos produtos, desde plásticos até fertilizantes e embalagens. Estudos do FMI indicam que um aumento de 10% no preço do petróleo pode diminuir o crescimento do PIB chinês em até 0,2 pontos percentuais. Se o preço do petróleo subir de US$ 73 para US$ 130, como já ocorreu em conflitos passados, o impacto no crescimento econômico poderia ser severo, cortando pela metade as previsões para o ano.
A Ironia da Situação
Exatamente aqui reside uma ironia cruel: o Irã, ao fechar o Estreito de Ormuz, pode estar prejudicando mais seu maior parceiro comercial, a China, do que os próprios agressores, os Estados Unidos. Enquanto os EUA se beneficiam da produção interna de petróleo, a China não tem esse mesmo amortecedor e sua reserva estratégica é insuficiente para longos períodos de escassez.
O Futuro e as Possíveis Consequências
No curto prazo, os mercados já estão reagindo ao choque, e o preço do petróleo pode subir ainda mais. Ações de empresas petrolíferas e refinadoras chinesas devem sofrer, enquanto as energias renováveis podem ganhar destaque como alternativas. Em um futuro mais distante, a China provavelmente continuará a diversificar suas fontes de energia e a acelerar a eletrificação, buscando rotas alternativas de abastecimento.
Portanto, a dor que a China enfrenta agora é real e substancial. Quem não a percebe está focando em Teerã, quando deveria estar prestando atenção em Pequim.