Depois de deixar o comando do Jornal Nacional, o jornalista William Bonner parece bem mais à vontade pra falar o que pensa — e sem aquele filtro todo que a televisão exige, né. Em uma entrevista recente, ele acabou revelando bastidores que muita gente até suspeitava, mas nunca tinha sido dito de forma tão direta assim. Segundo ele, houve um momento em que a Globo, de certa forma, tentou “blindar” o então presidente Jair Bolsonaro. E isso, claro, não caiu nada bem pra ele.
A conversa aconteceu com o jornalista Ernesto Rodrigues, que está lançando o livro A Globo Volume 3: Metamorfose. Nesse terceiro volume da trilogia, ele mergulha na história da emissora entre 1999 e 2025 — um período cheio de mudanças, crises e decisões complicadas. E foi justamente ali que surgiu esse episódio meio tenso, lá em junho de 2021, quando o clima político no Brasil já tava bem pesado, com discussões acaloradas, manifestações e aquele ambiente meio instável que todo mundo lembra.
Bonner, que na época ainda era editor-chefe e apresentador do principal telejornal do país, contou que chegou num ponto em que não dava mais pra ficar quieto. Ele mesmo admitiu que foi até a sala de Ali Kamel, um dos nomes mais fortes dentro da Globo, pra cobrar um posicionamento mais firme da emissora diante das atitudes do presidente.
E aí, segundo o relato dele, a conversa foi bem direta, sem rodeios. Bonner disse algo do tipo: todo mundo já tava vendo o que tava acontecendo, não era segredo pra ninguém. Ele afirmou que, na visão dele, Bolsonaro já dava sinais claros de que queria se manter no poder de qualquer forma, inclusive com discursos que levantavam suspeitas de intenções golpistas. Não era questão de ser mais esperto ou analista político, segundo Bonner — era porque o próprio presidente falava coisas que indicavam isso.
Ele citou, por exemplo, as falas do 7 de Setembro, que tiveram um tom bem forte, além de outras declarações que geraram bastante repercussão na época. Aquela história de “meu Exército” também foi mencionada, o que aumentava ainda mais a preocupação dentro da redação.
Mesmo assim, o jornalista destacou que existe uma linha editorial que a Globo segue, de não fazer campanha política. E isso, de certa forma, travava uma reação mais direta. Só que, pra ele, chegou um momento em que ignorar o que tava acontecendo parecia errado.
Numa parte da conversa, que ele mesmo descreveu, Bonner questionou: até que ponto dá pra fingir que não tá vendo algo tão evidente? Foi aí que o clima pesou mesmo. Ele deixou claro que não estava confortável com a postura mais cautelosa da emissora diante de um cenário que, na visão dele, exigia mais firmeza.
Esse tipo de revelação chama atenção porque mostra um lado dos bastidores que o público normalmente não vê. Quem assiste o jornal ali, todo arrumado, com notícias bem organizadas, nem imagina as discussões internas, as dúvidas, os conflitos de opinião que rolam por trás das câmeras.
E olha… não é pouca coisa não. Principalmente num período como aquele, onde política, mídia e opinião pública estavam completamente misturados. Era pandemia, crise econômica, tensão institucional… tudo ao mesmo tempo.
Hoje, já fora do cargo, Bonner parece mais tranquilo pra tocar nesses assuntos. Talvez seja aquela sensação de missão cumprida, ou simplesmente o fato de não ter mais o mesmo peso nas costas. De qualquer forma, o que ele contou reacende um debate antigo: até onde vai o papel da imprensa? E quando o silêncio, ou a cautela, começa a incomodar até quem está dentro da própria redação?
Fica aí a reflexão… porque, no fim das contas, não existe resposta simples pra isso.