As constantes brigas entre o sargento Eduardo Abner Pereira de Oliveira, de 37 anos, e a capitã da Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG), Michele Leão Azevedo, de 41 anos, já chamavam a atenção de quem morava no mesmo prédio havia algum tempo. Segundo relatos de vizinhos, as discussões eram frequentes, marcadas por gritos, xingamentos e muito barulho. Depois da morte da policial, ocorrida nesta semana, moradores passaram a dizer que o desfecho era algo que infelizmente temiam fazia tempo.
Durante o velório da capitã, realizado nesta quarta-feira (22), uma vizinha identificada como Daniela Soares da Silva falou sobre a convivência do casal e afirmou que o feminicídio foi uma verdadeira “tragédia anunciada”. Ela contou que as brigas aconteciam praticamente de forma constante e deixavam todos assustados.
De acordo com Daniela, era comum ouvir a voz de Eduardo durante as discussões. Os gritos atravessavam as paredes do apartamento e podiam ser escutados por outros moradores do edifício. Em muitos momentos, segundo ela, ninguém sabia exatamente o motivo das brigas, mas era evidente que o clima entre os dois era bastante conturbado.
“Eu já imaginava que uma hora podia acontecer alguma coisa grave. Era uma tragédia anunciada. Só não pensei que fosse acontecer tão depressa”, disse a vizinha ao lembrar da notícia que abalou todo o condomínio.
Além das discussões, Daniela também contou que o casal costumava realizar festas com música eletrônica em volume muito alto. Segundo ela, havia ocasiões em que o som permanecia ligado por dias, incomodando praticamente todos os moradores do prédio.
Ela afirma que, com o passar do tempo, muitos vizinhos desistiram até mesmo de reclamar. Segundo a moradora, qualquer tentativa de conversar parecia não surtir efeito. “Chegou um momento em que ninguém falava mais nada, porque eles simplesmente não respeitavam os outros moradores”, relatou.
A vizinha ainda recordou de uma discussão considerada por ela uma das mais violentas. O episódio aconteceu no dia 13 de julho, pouco mais de uma semana antes da morte da capitã. Ela lembra que aquela briga chamou ainda mais atenção por causa da intensidade dos gritos e dos xingamentos.
“Na semana da Copa, no dia 13, teve uma briga muito estranha, muito feia mesmo. Naquele dia eu fiquei preocupada, mas acabou não acontecendo nada. Depois disso as discussões continuaram como sempre”, contou.
Na noite em que Michele morreu, Daniela disse que não estava no prédio durante o ocorrido. Quando voltou para casa, por volta das 21h45, encontrou gotas de sangue espalhadas pelo corredor. Segundo ela, Eduardo havia deixado o edifício poucos minutos antes.
Assustada com a cena, a moradora resolveu registrar as marcas de sangue usando o celular. Mesmo vendo aquela situação, ela afirmou que jamais imaginou que a capitã já estivesse sem vida.
“No momento pensei que alguém tinha se machucado seriamente, mas nunca passou pela minha cabeça que ela já tinha morrido”, lembrou.
Na manhã seguinte, policiais bateram à porta da vizinha perguntando se ela havia escutado gritos ou percebido alguma movimentação diferente durante a noite. Foi somente nesse momento que Daniela soube oficialmente da morte de Michele.
“Quando o policial falou que a Michele tinha morrido, minha pressão caiu. Eu fiquei completamente em choque”, contou emocionada.
O sargento Eduardo Abner Pereira de Oliveira foi preso em flagrante na noite de segunda-feira (20), depois de levar a esposa já sem sinais de vida ao Hospital Odilon Behrens, em Belo Horizonte.
Em depoimento à polícia, ele afirmou que o casal havia consumido bebida alcoólica e ecstasy. Segundo sua versão, Michele sofreu uma queda de uma escada durante práticas sexuais consensuais que envolviam agressões. Ainda de acordo com o militar, ela recusou atendimento médico naquele momento e morreu horas depois.
No entanto, essa versão passou a ser questionada pela Polícia Civil. Exames preliminares apontaram diversas lesões espalhadas pelo corpo da vítima, incluindo marcas compatíveis com chicotadas e um ferimento grave no rosto. Os investigadores também analisam relatos de familiares que indicam um possível histórico de relacionamento abusivo entre o casal.
Durante o atendimento no hospital, Eduardo também foi flagrado tentando jogar fora uma caixa contendo 18 comprimidos de ecstasy em uma lixeira. Por causa disso, além da investigação pela morte da capitã, ele também passou a responder por suspeita de tráfico de drogas.
O caso continua sendo investigado pela Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher. A expectativa agora é pelos laudos periciais, que deverão ajudar a esclarecer exatamente como aconteceu a morte da capitã Michele Leão Azevedo e se houve feminicídio.