77% dos presos da Penitenciária Federal de Brasília usam psicotrópicos

A Realidade Sombria da Saúde Mental na Penitenciária Federal de Brasília

Um relatório recente do MNPCT (Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura) trouxe à tona um dado alarmante: aproximadamente 70% dos detentos da Penitenciária Federal de Brasília fazem uso de medicamentos psicotrópicos. Essa informação foi coletada durante uma inspeção que ocorreu em março deste ano e revela uma situação preocupante no sistema penitenciário brasileiro. Ao todo, 52 dos 68 presos estavam sob tratamento com alguma forma de medicação psicotrópica.

O Uso de Medicamentos Psicóticos

De acordo com o MNPCT, a alta taxa de utilização desses medicamentos levanta questões sobre a saúde mental dos detentos e a avaliação dos profissionais que lidam com eles. O órgão alerta que esses fármacos podem ser utilizados como uma espécie de “contenção química”, o que pode, na verdade, ocultar os sinais de sofrimento psíquico que surgem como resultado das condições difíceis do encarceramento.

A Secretaria Nacional de Políticas Penais (SENAPPEN), parte do Ministério da Justiça e Segurança Pública, negou que haja uso desses medicamentos como uma forma de contenção. Segundo eles, os presos têm acesso a cuidados de saúde abrangentes, que incluem atendimentos médicos e psicológicos. A SENAPPEN enfatiza que todos os medicamentos são dados apenas após avaliação clínica cuidadosa.

Relatos de Sofrimento Psíquico

No entanto, as entrevistas feitas pelos peritos revelaram uma realidade muito diferente. Os detentos relataram experiências de intenso sofrimento psicológico, incluindo sintomas como insônia, ansiedade, e até mesmo ideação suicida. Esse quadro é alarmante e indica uma deterioração progressiva da saúde mental dos presos ao longo do tempo.

Um dos entrevistados descreveu a experiência dentro do sistema penitenciário como um “massacre psicológico”. Essa descrição reflete o impacto que o isolamento social e a falta de estímulos têm sobre a saúde mental dos indivíduos encarcerados. A rotina de 22 horas dentro de uma cela, com apenas duas horas para banho de sol, é considerada insuportável por muitos.

Deficiência nos Atendimentos Psicológicos

Outro ponto crítico levantado foi a quantidade de atendimentos psicológicos realizados. O relatório revelou que em um período de três meses, apenas nove atendimentos de psicologia foram realizados, o que é amplamente considerado insuficiente. Em contrapartida, foram contabilizados 27 atendimentos de saúde em dezembro, 17 em janeiro e 16 em fevereiro, mas mesmo assim, o total de atendimentos não chega a um por dia, o que levanta questões sobre a qualidade do acompanhamento da saúde mental dos presos.

Isolamento e suas Consequências

O MNPCT também apontou o modelo de custódia como um dos fatores que mais contribuem para o sofrimento mental dos detentos. O isolamento prolongado e a falta de interação social são considerados condições que podem agravar a saúde mental, levando a surtos e crises de ansiedade.

Os profissionais de saúde que participaram da inspeção relataram a situação crítica dos recém-chegados, que passam por um período de triagem de 20 dias em isolamento, onde muitos apresentam sintomas de adoecimento mental, incluindo alucinações e tentativas de suicídio.

Visitas e Relações Familiares

Outro fator que contribui para o sofrimento dos detentos é a restrição do contato físico durante as visitas familiares. As visitas são realizadas através de parlatórios, separados por vidro, o que impede o contato físico e intensifica a sensação de solidão e abandono. Essa falta de interação é especialmente prejudicial para as crianças que têm pais encarcerados, pois a impossibilidade de demonstrar afeto pode ter um impacto emocional duradouro.

Recomendações e Conclusões

Em resposta ao quadro alarmante, o MNPCT recomendou que medidas sejam implementadas para monitorar a saúde mental dos presos e prevenir o agravamento do sofrimento psíquico. É essencial que a assistência à saúde mental seja adequada e que se leve em consideração a complexidade das condições encontradas na penitenciária.

O relatório do MNPCT, que é parte de um levantamento mais amplo sobre as condições nos estabelecimentos penais do Distrito Federal, enfatiza a necessidade urgente de revisão e melhorias no sistema penitenciário para garantir que os direitos e a dignidade dos detentos sejam respeitados, evitando tratamentos cruéis e desumanos.



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