Durante a apuração do primeiro turno das eleições de 2022, uma cena envolvendo Jair Bolsonaro e seu filho, o senador Flávio Bolsonaro, chamou atenção nos bastidores daquele momento político. O episódio aconteceu na sede do Ministério da Defesa, em Brasília, local escolhido pelo então presidente para acompanhar de perto a contagem dos votos.
Naquele dia, Jair Bolsonaro estava acompanhado de integrantes da cúpula militar e do então ministro da Defesa, Paulo Sérgio Nogueira. O ambiente era de muita tensão, já que os números das urnas eram acompanhados minuto a minuto. A eleição presidencial seguia para uma disputa apertada e qualquer movimento político poderia ter algum peso na reta final.
Foi nesse cenário que ocorreu o atrito entre pai e filho. Segundo o relato apresentado pelo brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Junior, que comandou a Aeronáutica durante o governo Bolsonaro, Flávio sugeriu que o pai telefonasse para Romeu Zema, governador de Minas Gerais, para parabenizá-lo pela vitória no primeiro turno e pela recondução ao cargo.
A recomendação tinha um motivo bastante claro. Minas Gerais era considerado um dos principais estados para a disputa presidencial, principalmente por seu grande número de eleitores e pelo histórico de acompanhar o resultado nacional. Uma aproximação com Zema poderia ajudar Bolsonaro na busca por votos para o segundo turno.
Bolsonaro, porém, inicialmente não demonstrou muito interesse em fazer a ligação. Mesmo assim, acabou seguindo a orientação do filho e entrou em contato com o governador mineiro. Antes disso, no entanto, teria reagido de maneira dura à sugestão feita pelo senador.
De acordo com o relato de Baptista Junior, publicado no livro Eu disse NÃO: uma trincheira antigolpista, da Autêntica Editora, o ex-presidente disparou para Flávio: “Você não entende nada de política”.
A frase revela um momento de tensão familiar ocorrido justamente em uma situação bastante delicada. Naquele instante, decisões políticas eram tomadas sob pressão, enquanto a campanha para o segundo turno já começava a ganhar forma.
A ligação, apesar do desentendimento, acabou tendo importância nas movimentações políticas daquele período. Zema, que havia sido reeleito governador de Minas Gerais, posteriormente declarou apoio à candidatura de Bolsonaro no segundo turno. A aproximação entre os dois grupos passou a ser vista como uma estratégia para tentar ampliar a votação do então presidente no estado.
O episódio também mostra como, nos bastidores de uma eleição presidencial, nem sempre as decisões são tomadas de maneira planejada ou tranquila. Muitas vezes, uma simples ligação pode representar uma tentativa de construir alianças e conquistar apoio em regiões consideradas decisivas.
Em 2022, Minas Gerais novamente apareceu como um dos grandes centros de atenção da disputa eleitoral. A diferença apertada entre os candidatos no primeiro turno aumentou ainda mais a importância de cada apoio político.
O relato feito anos depois pelo ex-comandante da Aeronáutica trouxe à tona esse momento específico entre Jair e Flávio Bolsonaro. Mais do que uma discussão familiar, a situação mostra as divergências que também existiam dentro do próprio grupo político durante uma eleição marcada por forte polarização e decisões tomadas praticamente em tempo real.