El Niño: O Impacto na Agricultura Brasileira
O fenômeno climático conhecido como El Niño está prestes a atingir seu pico justamente quando o Brasil se prepara para plantar uma safra que promete ser um verdadeiro recorde. Essa situação, embora pareça apenas uma coincidência, traz consigo um alerta que não é tão tranquilizador. Para entender melhor, é preciso considerar que a abundância de chuvas em uma região não necessariamente compensa a perda de produtividade em outra. Assim, o efeito final sobre a inflação e a economia dependerá de qual parte da cadeia produtiva será mais afetada.
Probabilidades de um El Niño Forte
Recentemente, no dia 8 de outubro, a NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA) estimou que há uma probabilidade de 83% de que, entre os meses de outubro e dezembro, o El Niño se torne o mais intenso já registrado desde 1950. Essa data marca o início da série histórica confiável para o Pacífico equatorial. Essa previsão é medida pelo Índice Oceânico Relativo do Niño (RONI).
Projeções da Organização Meteorológica Mundial
A Organização Meteorológica Mundial (OMM) projetou que a anomalia média na região Niño 3.4 do Oceano Pacífico, que é usada para monitorar o El Niño, pode alcançar a média de 3,7 °C. Esse número é alarmante, especialmente quando comparamos com o recorde anterior de 2,6 °C, que ocorreu entre novembro de 2015 e janeiro de 2016. Eventos que apresentam uma anomalia média acima de 2,0 °C são considerados muito fortes. Portanto, uma previsão de 3,7 °C, com um pico esperado em dezembro, é quase o dobro deste limite, levando muitos especialistas a se referirem a ele como um Super “Super El Niño”.
Implicações para a Agricultura
O Painel El Niño, que é coordenado pelo Inmet, juntamente com outras seis instituições, já está emitindo alertas sobre as possíveis consequências desse fenômeno. Em particular, há uma previsão de seca no centro-norte do Brasil e um excesso de chuvas no Sul. Dados recentes do Cemaden mostram que o número de municípios em situação de seca extrema saltou de quatro para 24 em apenas um mês. A Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) estima uma produção de 366,6 milhões de toneladas de grãos, mesmo considerando uma queda na produtividade média. Isso é preocupante, especialmente nas grandes áreas de soja do centro-norte, onde o calor e a falta de água durante o desenvolvimento das plantas podem ter um impacto maior do que a simples expansão da área plantada. No Sul, por outro lado, as chuvas podem ser benéficas para a soja, mas prejudiciais para a produção de trigo.
A Situação Energética
A situação elétrica do país também apresenta desafios distintos. No Programa Mensal de Operação de 3 a 9 de outubro, o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) projetou que o Sul teria afluências de 244% da média, enquanto o Sudeste/Centro-Oeste ficaria em 128%. No entanto, o Norte enfrentaria uma realidade bem diferente, com apenas 48% da média. Em Belo Monte, a previsão era de apenas 22% da afluência usual, e no reservatório do Madeira, a energia armazenada poderia terminar o mês de outubro com apenas 12% da capacidade máxima. Essas discrepâncias regionais são cruciais para entender a vulnerabilidade do sistema elétrico, embora não sejam previsões sobre o aumento da conta de luz.
Histórico e Comparações
As enchentes que ocorreram no Rio Grande do Sul em 2024 oferecem um exemplo pertinente, mas não necessariamente um roteiro a seguir para 2027. Naquele ano, o Banco Central observou que a inflação em Porto Alegre superou a média nacional em 0,41 ponto percentual no mês de maio, porém essa diferença foi quase totalmente revertida em junho. Entre maio e dezembro, a inflação da cidade ficou 0,6 ponto abaixo da média nacional. Naquela época, grande parte do arroz já tinha sido colhida, e o principal desafio era o transporte do produto. Agora, o risco gira em torno de lavouras que ainda estão em formação, onde a perda de produção pode levar mais tempo para ser compensada do que a simples interrupção de uma estrada.
O Papel do Banco Central
Por essa razão, seria um erro considerar cada alerta climático como uma justificativa para aumentar as taxas de juros. O Banco Central deve ponderar se o choque provocado pelo clima pode influenciar as expectativas e outros preços. Já o governo precisa agir nas áreas onde a política monetária não é suficiente. O Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico pode apresentar cenários de um El Niño intenso, prevendo uma maior utilização de termoelétricas, que costumam ser mais caras. A Conab, por sua vez, pode detalhar as faixas de perda por cultura e região, oferecendo uma visão mais clara do impacto potencial.
Conclusão
Em resumo, a intensidade do fenômeno El Niño determinará como as coisas se desenrolarão. A capacidade do Brasil de se antecipar e se preparar para esses desafios climáticos será fundamental para definir a magnitude do impacto econômico e social que enfrentaremos.